O selo verde garante que o produto respeita rios e nascentes
Uma das formas mais eficazes para
garantir que um produto de origem florestal não veio de práticas predatórias é
o selo da FSC. O selo é gerido pela Forest Stewardship Council, uma ONG
internacional que mantém critérios ecológicos e sociais para a exploração de
madeira e outros produtos da floresta. No Brasil, há várias empresas com o selo
nas embalagens. Mas todas as florestas nativas certificadas do país estão na
Amazônia. Os ecossistemas mais devastados - o Cerrado e a Mata Atlântica - não têm florestas nativas produzindo
com o selo verde. Esse é um dos desafios para aumentar a relevância da
certificação, como explica Fabíola Zerbini, secretaria executiva do FSC Brasil.
Leiam a entrevista feita pela revista ÉPOCA.
Entrevista
ÉPOCA: Quantas empresas têm
florestas certificadas no Brasil?
Fabíola Zerbini: Aproximadamente
80 empresas tem florestas certificadas, o equivalente a 65% do total de
florestas plantadas em território brasileiro e a não mais que 1% das florestas
nativas amazônicas passíveis de certificação.
ÉPOCA: Está crescendo?
Fabíola: A certificação no setor
de plantações florestais vem aumentando significativamente nos últimos anos,
diferentemente do setor de nativas, cujos números seguem estáveis desde 2006.
ÉPOCA: Em quais ecossistemas
estão essas florestas certificadas?
Fabíola: Cem por cento da
certificação de florestas nativas se dá na Amazonia Legal. E aproximadamente
80% da certificação de plantações florestais se dá nos estados de Bahia, São
Paulo e Paraná.
ÉPOCA: Hoje, o desmatamento no
cerrado é duas vezes maior do que na floresta amazônica. Quantas florestas
certificadas no cerrado nós temos?
Fabíola: Não há nenhuma área de
mata nativa certificada no bioma cerrado, apenas de plantações florestais, em
áreas não convertidas após 1994. São plantações já existentes antes de 1994, data
de aprovação das normas de certificação FSC de plantações florestais. Isso
acaba contribuindo positivamente para a conservação das áreas de proteção
permanentes dessas unidades de manejo certificadas. O principal uso da madeira
nativa do bioma cerrado é carvão vegetal – um setor ainda muito refratário à
adoção de práticas de sustentabilidade, e, portanto, à certificação. A recente
pressão de setores ambientalistas, consumidores e empresas usuárias deste
insumo deve aumentar a quantidade de áreas certificadas de matas nativas no
cerrado no médio prazo.
ÉPOCA: O ecossistema mais
devastado do Brasil é a Mata Atlântica. Quanta certificação temos lá?
Fabíola: Não há áreas
certificadas FSC de florestas nativas no bioma Mata Atlântica, uma vez que a
lei da Mata Atlântica não permite manejo de recursos madeireiros. A
certificação FSC de recursos não madeireiros (potencialmente permitida pela Lei
da Mata Atlântica) é muito pouco utilizada pelos produtores brasileiros. Há
apenas um único caso: erva mate no sul do Brasil. Estamos preocupados em
aumentar a certificação de não madeireiros como proposta de preservação de
biomas tropicais onde o manejo madeireiro não é permitido, bem como, de
valorização produtiva de pequenos produtores. Isso foi objeto de uma moção aprovada
na última Assembleia do FSC no ano passado, o que desencadeará projetos e ações
específicos de fomento e estímulo a partir deste ano. Elas envolvem incentivos
financeiros para certificação de produtos não madeireiros.
ÉPOCA: Por que temos mais certificação
na Floresta Amazônica, quando as áreas mais ameaçadas estão em outros
ecossistemas?
Fabíola: Primeiramente, a
decisão pela certificação não depende apenas do risco de desmatamento, mas
também de outras prerrogativas legais (sobre a permissão ou não da atividade de
manejo naquele bioma) e atratividade do uso de determinadas madeiras nos
processos produtivos em geral. A madeira amazônica é muito comum nos setores
moveleiro e da construção civil, tendo um alto valor no mercado. Em segundo
lugar, infelizmente, a Amazonia é também um bioma altamente ameaçado pelas
práticas ilegais de desmatamento. Segundo dados do Imazon, as florestas
degradadas na Amazônia Legal somaram 110 quilômetros quadrados em dezembro de
2014. Em relação a dezembro de 2013 houve um aumento de 244%, quando a
degradação florestal somou 32 quilômetros quadrados.
ÉPOCA: Qual é a vantagem da
certificação para o meio ambiente?
Fabíola: Em termos de benefícios
socioambientais, a certificação FSC permite contribuir para o uso responsável
dos recursos naturais, ajuda a conservar a capacidade de regeneração das
florestas nativas. Preserva a vida silvestre. Ajuda comunidades locais.
Estimula direitos indígenas. Também é uma alternativa economicamente viável às
práticas destrutivas.
ÉPOCA: Qual é a vantagem para o
consumidor?
Fabíola: O FSC é um sistema de
certificação florestal internacionalmente reconhecido. Faz um link confiável
entre a produção e o consumo responsáveis de produtos florestais.
ÉPOCA: E qual é a vantagem para
a empresa?
Fabíola: Aumenta a
credibilidade. Permite chegar a novos mercados. Também reduz o desperdício na
floresta. A produção fica mais racional. Algumas melhorias podem ser fácil e
rapidamente percebidas, como gerenciamento dos resíduos sólidos, controle da
qualidade da água, procedimentos internos de segurança do trabalho que garantem
mais preocupações com o bem estar dos trabalhadores, procedimento e controle
das documentações dos profissionais contratados... Em alguns casos, a
certificação ajuda, inclusive, nos controles internos e na hora de atrair e
reter bons funcionários, já que hoje as pessoas não são motivadas apenas por
dinheiro, mas querem trabalhar num lugar que esteja de acordo com os seus
valores. Dependendo do setor, é requisito mínimo. Como no papel e celulose.
ÉPOCA: O consumidor sabe o que é
certificação?
Fabíola: Não exatamente. Uma
pesquisa recente mostra que um em cada cinco consumidores em todo o mundo
reconhece o selo FSC. No Brasil, 90% dos representantes da indústria e 23% dos
consumidores conseguem identificar a certificação e sabem qual o significado da
imagem. Ou seja, num das pontas do processo, muita gente sabe que a arvorezinha
verde é um selo verde, mas não sabe muito bem o que isso significa. E isso que
nós queremos mudar agora. Afinal, o consumidor final é importantíssimo para
pressionar a cadeia como um todo e suas escolhas tem sim impacto na floresta.
Com as suas atitudes, ele pode estimular o cara que explora madeira do jeito
correto ou o grileiro, que trabalha ilegalmente. Alias, é com esse objetivo, de
ligar os pontos e explicar o que é a certificação e o manejo responsável, que
lançaremos um vídeo bem didático para conquistar e conscientizar o consumidor
final. Substituir os produtos de origem florestal não é sustentável. Sustentável
é se preocupar com a origem deles.
ÉPOCA: Como uma floresta
certificada garante a produção de água?
Fabíola: Primeiro, através da
conservação das áreas de preservação permanente, evitando erosão e gerando
impactos positivos na qualidade de água. Segundo através da proteção do solo de
toda a área de manejo, aumentando a absorção de água que vai auxiliar na
recarga dos aquíferos. E terceiro, na cobertura do solo pelo manejo que também
influencia no microclima e na evaporação.
ÉPOCA: O que a empresa
certifica: uma floresta ou um produto?
Fabíola: Do ponto de vista
técnico, a certificação FSC é de processo. Entre as etapas do processo de
certificação estão duas modalidades. Uma é o manejo florestal. É aplicado às
florestas, onde se avalia as técnicas de manejo florestal responsável,
respeitando todos os princípios e critérios sociais, ambientais e econômicos
das normas FSC. Outra é a cadeia de custódia, onde se avaliam todas as
indústrias da cadeia produtiva florestal para garantir que a matéria-prima
certificada não será misturada à matéria-prima não certificada. Para isso, é
preciso rastrear a matéria-prima durante todo o processo produtivo através de
documentação e separação física de estoques, por exemplo.
ÉPOCA: Qual é a garantia de
independência da certificação?
Fabíola: As certificadoras
acreditadas pelo sistema FSC são fiscalizadas por um organismo independente, a
ASI – Accreditation International Service, e devem seguir critérios rigorosos
de neutralidade e imparcialidade em todos os trabalhos de auditoria realizados
no âmbito do sistema FSC, além de comprovar capacidade técnica na avaliação de
critérios específicos de manejo florestal. Todas as certificadoras acreditadas
pela ASI também são acreditadas pelo INMETRO no âmbito das normas ISO 65
(certificação de produtos) e ISO 63 (certificação de processos), que avaliam
uma série de prerrogativas relacionadas ao compromisso das certificadoras com
isenção, transparência e neutralidade.
ÉPOCA: Já houve caso de alguém
ser descadastrado?
Fabíola: A política de
associação do FSC prevê mecanismos de “desassociação” para empresas que
incorrem em um dos cinco fatores impeditivos. Eles incluem exploração ilegal,
violação de direitos civis, ameaça à conservação ou uso de material
geneticamente alterado.
ÉPOCA: Já houve descadastramento
de alguma empresa?
Fabíola: Sim. Alguns casos. Em
2007, a APP da Indonésia foi desassociada. Recebemos denúncias de que a empresa
estava desrespeitando área de mata ciliar. Investigamos e decidimos desassociar
a empresa da FSC.
ÉPOCA: Houve algum caso no
Brasil?
Fabíola: Não.
Fonte: www.epoca.globo.com



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