quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Faltam locais de lazer nas cidades


Sempre em todos os feriados, e, como sempre acontece, milhões de pessoas dirigem-se ao interior e ao litoral para passar os feriados. Estradas congestionadas, acidentes; milhões de horas perdidas pelos turistas, deslocando-se de um lugar a outro. Os feriados seriam muito mais agradáveis, se este tempo perdido, sentado dentro dos automóveis, pudesse ser empregado passando mais algumas horas na praia ou se divertindo com amigos. Mas do jeito como funciona o turismo e o lazer no Brasil, isto dificilmente será possível.
O problemas, como todos já sabem, começam nas grandes cidades. Sem suficientes opções de lazer, principalmente na periferia dos grandes centros urbanos, os moradores das regiões metropolitanas ficam limitados a frequentarem shopping centers, cinemas, shows de música, algumas exposições e os poucos parques urbanos disponíveis. A exceção são as grandes capitais litorâneas do Nordeste, a cidade do Rio de Janeiro, Florianópolis e mais uma ou outra cidade de maior porte localizada no litoral, como Santos. No entanto, mesmo assim, a população que mora na periferia destas cidades, situada longe do mar, encontra seu principal lazer na praia. Mesmo porque, outros logradouros, quando existem, muitas vezes são mal cuidados e com pouca segurança, frequentados por assaltantes e consumidores de drogas.
Assim, basta surgir um feriado – seja o Reveillon ou o Carnaval são festas muito especiais na cultura popular brasileira - para que grandes massas se desloquem para as praias. Uns, vindo de longe e utilizando as autoestradas, e outros, deslocando-se dentro da própria cidade ou região metropolitana, como ocorre no Rio de Janeiro, em Salvador e outras.
Se as cidades tivessem uma melhor infraestrutura, formada por clubes públicos com infraestrutura para a prática de esportes, piscinas, áreas de lazer e bosques - efetivamente em funcionamento e bem administrados - a população teria mais opções de lazer. Os clubes com piscinas públicas, nos quais os cidadãos passam a ter contato com os esportes aquáticos, são muito comuns na Europa e deveriam ser construídos em grande número nas cidades brasileiras - principalmente considerando o clima tropical do país, onde em sua maior parte é possível utilizar a piscina durante o ano todo.
Inúmeros fatores contribuem assim para estes imensos deslocamentos de pessoas em todo feriado, que tanto contribuem para sobrecarregar a infraestrutura das cidades turísticas. Desde a falta de investimentos em lazer nas grandes cidades, passando pelo alto custo das viagens para outras regiões (passagens aéreas, alimentação e hotéis), até a incerteza da economia. A opção próxima e barata são então as cidades do litoral, principalmente nos estados do Sudeste e do Sul.
Apesar de continuarmos sendo uma das dez maiores economias do mundo, nossas grandes cidades em pouco melhoraram sua infraestrutura de lazer nos últimos 50 anos. Existem poucas opções, principalmente para as pessoas de menor poder aquisitivo e os moradores das periferias. É só olhar para os rios e lagos, localizados no ambiente urbano, para ver o descaso com estão sendo tratados pelo poder público. Lixo, esgoto, invasões, entulho de obras, focos de doenças. O lazer ocorre somente uma vez ao ano, quando muitos extravasam sua revolta e decepção, à luz dos fogos, embalados pela música. 

Fonte: Ricardo Ernesto Rose

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Insumo econômico e direito humano


Quando a colônia brasileira começou a ser ocupada, no século 16, e europeus passaram a fundar vilas, pequenas fontes de água bastavam para abastecer uns poucos cidadãos e animais. Permanecer junto aos grandes rios não era parte dos planos dos fundadores das primeiras cidades. O Colégio dos Jesuítas, pedra fundamental de São Paulo, por exemplo, foi edificado em um outeiro, lugar apropriado para a defesa contra possíveis ataques de índios, mas com pouca água. Mas, dessa vila nasceu a metrópole de quase 20 milhões de habitantes que demandam cerca de 80 litros por pessoa/dia de água tratada para suas necessidades domésticas. Volume impossível de ser obtido nos mananciais próximos, que, pelos critérios estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) têm capacidade sete vezes menor que a necessária para a população que atendem. É preciso ir buscar á água cada vez mais longe e tratar cada vez mais os recursos poluídos, para torná-los próprios ao consumo.
O ano de 2014 demonstrou, de maneira empírica, que as fontes disponíveis nas imediações das maiores metrópoles brasileiras não são suficientes para o abastecimento da forma como é feito atualmente: de maneira displicente, com perdas acima de 30% dos volumes tratados antes de chegar aos consumidores e com pouca ou nenhuma informação sobre as condições dos mananciais e a necessidade de uso mais racional do consumo.
Um levantamento da Agência Nacional de Água (ANA) aponta que o problema do abastecimento é generalizado pelo País. Dos 5.565 municípios brasileiros, mais da metade terá problemas de abastecimento nesta década. E, para tentar adiar a crise ao menos até 2030, será preciso desembolsar R$ 22 bilhões em obras de infraestrutura, construção de sistemas de distribuição, novas estações de tratamento e manutenção de redes superadas, com vazamentos generalizados. E nesse total não estão incluídos os recursos necessários para resolver o problema do saneamento básico, como a construção de sistemas de coleta de esgoto e estações de tratamento, de forma a proteger os mananciais onde se faz a captação para consumo humano. Para isso, segundo a ANA, serão necessários outros R$ 47,8 bilhões.
Os investimentos são urgentes também porque 13% dos brasileiros não têm um banheiro em casa, ou porque mais de 700 mil pessoas procuram os serviços de saúde a cada ano em virtude de doenças provocadas pelo contato com água contaminada por esgotos, ou ainda porque sete crianças morrem a cada dia vítimas de diarreia, entram nas estatísticas de mortes por problemas gastrointestinais? Em 2009, elas somaram 2.101 casos. Acredita-se que mais da metade poderia ter retornado com saúde para suas famílias, ou mesmo nem adoecido, caso o Brasil estivesse entre as nações que oferecem saneamento básico universal à população.
Para tornar a situação ainda mais dramática, um pesquisador da Universidade do México, Christopher Eppig, descobriu que crianças que enfrentam doenças, principalmente ligadas à diarreia e desidratação, podem ser afetadas em seu desenvolvimento intelectual. Segundo ele, a explicação para essa situação é simples. Alguns parasitas alimentam-se de partes do corpo humano e a reposição desse dano tem alto custo energético. “Em um recém-nascido, 87% das calorias absorvidas na alimentação vão para o cérebro, porcentagem que cai para 23% na fase adulta. Daí a preocupação em se saber se doenças que “roubam” energia das crianças podem afetar seu desenvolvimento intelectual”.
Dificuldades de gestão
Especialistas apontam que a questão da água, ao menos no caso brasileiro, está mais ligada a problemas relacionados à gestão que à escassez propriamente dita. Com 12% da água doce superficial do planeta, grande parte dela na Bacia Amazônica, o País deveria estar tranquilo em relação ao futuro do abastecimento. Mas a distribuição da água pelo território nacional é desigual, principalmente quando comparada à concentração da população. A região Norte tem 68% da água e apenas 7% da população. Nordeste e Sudeste, em oposição, concentram 72% dos habitantes e dispõem de menos de 10% da água. José Galizia Tundisi, autor do livro Água no Século XXI e especialista nas dinâmicas de rios, lagos e outros mananciais (ver artigo na pág. 12), acredita que uma das primeiras providências a serem tomadas para melhorar a gestão dos recursos hídricos é “realizar a avaliação econômica dos serviços prestados pelos recursos dos ecossistemas aquáticos”. Para ele, instituir um valor para esses serviços é a base de uma governança adequada, essencial para o controle do clima, do abastecimento e da produção de energia e de alimentos, entre outras atividades humanas.
Outro tema que emergiu como um ferimento exposto no cenário de escassez foi a necessidade de maior proteção aos mananciais, rios e nascentes que garantem a água para os grandes sistemas de abastecimento das metrópoles, como é o caso do sistema Cantareira em São Paulo e do Paraíba do Sul que atende o Rio de Janeiro. Os rios e nascentes que abastecem esses mananciais sofrem com o desmatamento de suas margens e a ocupação desordenada, tanto por habitações, principalmente ocupações ilegais e favelas, como por uma perigosa proximidade de lavouras e pecuária. Essas condições levam à contaminação por esgotos, no caso das favelas, ou a poluição por agentes químicos utilizados nas lavouras e, ainda, o assoreamento provocado pela atividade pecuária.
A água não é, evidentemente, apenas uma necessidade social, conforto de apenas abrir a torneira e dispor de água de boa qualidade em suas casas. É, também, um insumo econômico de necessidade básica. Muitas empresas compreenderam o risco que correm com a escassez e se adiantaram na gestão dos usos de água em seus processos produtivos. A indústria de celulose, por exemplo, reduziu em quase 50% suas demandas de água por tonelada de produto desde a década de 70. Segundo a associação do setor, a média era de 100 m³ de água por tonelada de celulose e caiu para 47 m³ atualmente. Outros setores seguiram a mesma linha: não apenas ao reduzir o volume de água por unidade de produto, mas, ao implantar sistemas de tratamento de águas industriais que permitem fechar o ciclo entre o uso e o reuso ?? como da alemã Basf em suas unidades do ABC Paulista e Guaratinguetá. Nos últimos dez anos, a empresa reduziu em 78% o consumo de água por tonelada produzida e em 62% a geração de efluentes de processos industriais. São exemplos que poderiam ser difundidos por diferentes setores, pois a água é um insumo fundamental à agricultura e à indústria. Sua gestão não tem relação apenas com o bem-estar da população, mas, também, com a saúde da economia.
Recurso natural indispensável
Tudo o que é produzido no País tem uma cota de água embutida. Os especialistas denominam essa situação de “água virtual”. Para produzir 1 kg de arroz, por exemplo, são necessários três mil litros de água, e 1 kg de carne bovina exige 15,5 mil litros. Uma simples xícara de café não gasta menos de 140 litros de água. Não é que essa água desapareça depois de servido o cafezinho. Mas, para que os produtos cheguem às mesas de consumo, é preciso que a água esteja não apenas disponível, mas limpa, isenta de contaminações por esgotos ou produtos químicos. E mais. Para um automóvel chegar à garagem, o consumo de recursos hídricos chega a 150 mil litros. Ou seja, a economia precisa, e muito, de água de boa qualidade. Isso sem mencionar o fato de que 18% das faltas de trabalhadores ao serviço poderiam ser evitadas com uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos no fornecimento à população e tratamento de esgotos.
O estudo produzido pela ANA é um passo importante para o debate sobre como o estresse hídrico dos mananciais afeta o abastecimento das principais regiões metropolitanas e deteriora a situação em outros municípios brasileiros. É necessário encarar o fato de que a segurança no abastecimento de água é estratégica e que o recurso é escasso. A sociedade, apesar dos problemas já evidentes no fornecimento de água às principais regiões consumidoras, ainda não trata o recurso como um bem finito. Mesmo com o país tendo atravessado 2014 com uma das mais importantes secas de sua história, administradores públicos relutam em apresentar a escassez de água como um problema estrutural. No discurso oficial, independente da instância de governo, o tema é colocado como conjuntural e que tende a ser superado “assim que as chuvas voltarem”.
Quando as razões da escassez de água são abordadas em boa parte da imprensa e das conversas, as mudanças climáticas, que recebem das Nações Unidas uma atenção especial desde a última década do século 20, não estão no centro da pauta e são lembradas apenas por especialistas em questões ambientais ligados à academia e a organizações da sociedade civil. Uma das principais teses do cientista Antonio Nobre, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) fala da relação entre a umidade que circula na Amazônia com a fertilidade dos estados do Sudeste, irrigados através do que ele chama de “Rios Voadores”. Esses “rios” são fluxos de umidade deslocados da Amazônia contra as encostas dos Andes, onde fazem uma curva em direção ao sudeste e em seu caminho, provocam chuvas sobre o Pantanal e lançam suas águas sobre os estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Uma observação simples do comportamento das chuvas no verão de 2013/2014, mostra que as águas da Amazônia caíram com violência sobre os estados brasileiros do Acre e Rondônia. As cheias na região duraram cerca de quatro meses, justamente o período que normalmente é de chuvas no Sudeste. Essas águas que provocaram o transbordamento dos rios Madeira e Acre são as mesmas que não avançaram como umidade em direção ao Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.
Privatizações frustradas
O planejamento do uso da água tem passado por transformações profundas nas últimas décadas e sofrido impacto de políticas públicas que ficaram ao largo de sua importância na produção e distribuição de água pelo país. É o caso do Código Florestal, aprovado em maio de 2012, que levou meses em uma discussão estéril sobre quantos metros deveriam ser preservados de matas ciliares no entorno de rios, lagos e represas. Em nenhum momento a preocupação com a segurança hídrica destacou-se no debate.
Estudos acadêmicos vêm alertando, há alguns anos, que a abordagem da água no Brasil é casual, não integrada e sem relação direta com a o processo da produção desse recurso, tema que, na realidade, é tratado por muitos engenheiros com certo desdém, sob o argumento de que “não é possível produzir água”, afinal, ela cai do céu. Mas, o fato é que o cuidado com rios e mananciais é fundamental para que as empresas de captação e tratamento possam oferecer água de boa qualidade para o consumo humano direto e outras atividades. Assim, é preciso questionar a estrutura jurídica da gestão de recursos hídricos, que torna o município o poder concedente para a exploração, tratamento e distribuição de águas, sem o cuidado de considerar que a dinâmica da Natureza não segue, evidentemente, as regras da geografia política.
O lógico, neste caso, seria uma gestão por bacias hidrográficas, o que vem sendo tentado desde os anos 90, e está presente na lei 9.433 de 1997, que criou a Política Nacional de Recursos Hídricos, mas que não avança por conta dos interesses econômicos envolvidos na distribuição de água. O modelo atual reflete o intenso período de privatizações, no final do século 20, quando as empresas estaduais de água e saneamento foram desmembradas e surgiram, em lugar delas, empresas locais, sob controle da iniciativa privada, em modelo de concessão, ou por empresas públicas municipais ou as estaduais remanescentes do antigo sistema. Algumas dessas empresas estaduais se fortaleceram dentro de um modelo de gestão de capital aberto, inclusive com presença em bolsas de valores internacionais, como é o caso da paulista Sabesp.
A gestão da água a partir de uma ótica estritamente economicista pelas empresas de abastecimento e pelas propriedades rurais, responsáveis por 70% do consumo total, cria distorções capazes de comprometer seriamente não apenas o abastecimento das necessidades humanas diretas, mas, também, o desempenho da economia, com prejuízos para as empresas. Dados apresentados pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Campinas e Região apontam prejuízos em diversos setores industriais paulistas por conta da seca. A paralização da Hidrovia Tietê/Paraná, por exemplo, tem o potencial de aumentar a conta da logística para os produtores rurais em mais de R$ 30 milhões e três mil trabalhadores podem ter perdido o emprego apenas em operações relacionadas à hidrovia e aos serviços em suas margens. No entanto os reflexos podem ser ainda maiores. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) está calculando o impacto da escassez de água sobre o PIB paulista o conjunto de bens e serviços produzidos em determinado período, geralmente de um ano que atualmente representa um terço do PIB brasileiro.
Uma fração da solução de longo prazo para os problemas de escassez hídrica deveria vir da compreensão de que é parte da “função social” da terra preservar os serviços ambientais por ela prestados. Assim, proprietários rurais deveriam formar uma grande rede de produtores de água, capacitados, com tecnologia, assistência técnica e os recursos necessários para a identificação de nascentes e cursos d’água eventualmente secos pela derrubada da mata e implantação de plantios ou pastagens, e realizar as ações necessárias para a recuperação e perenização dessas fontes hídricas.
Produtores rurais também devem ser apoiados em ações que ajudem a proteger os mananciais em sua propriedade ou adjacentes da contaminação por qualquer tipo de produto químico utilizado nas lavouras ou por dejetos e contaminantes de origem animal. Esses produtos, quando levados aos rios, são contaminantes de alto impacto para a biodiversidade e torna o tratamento da água mais caro.
A revista científica Nature (Scientific American integra o mesmo grupo editorial da Nature) publicou, em 2012, um estudo da University of Leeds, da Inglaterra, em que aponta a perda de mais de 600 mil km² da floresta amazônica desde a década de 70. O estudo também aponta que no atual ritmo de destruição, cerca de 40% de todo complexo natural da região estará extinto até 2050. Isso comprometeria seriamente o regime de chuvas, reduzidas em mais de 20% nos períodos de seca.
Faixa de desertos
O Sudeste brasileiro está na faixa dos desertos do hemisfério sul do planeta, na latitude do Trópico de Capricórnio. Ela atravessa enormes áreas continentais, como os desertos australianos de Great Sendy, Gibson e Great Victoria. Na África, estão as áreas desertificadas da Namíbia e do Kalahari e na América do Sul, o do Atacama. Sem qualquer coincidência, ambos desertos africanos, atualmente em expansão, estão alinhados frontalmente, dentro das margens latitudinais, com as regiões Sudeste e Sul do Brasil.
Essa porção territorial só se viu livre da desertificação com a exuberância da Amazônia e a formação da Mata Atlântica. Ambas foram determinantes para se criar um regime de chuvas que mantiveram essas partes do Brasil e da América do Sul com solos férteis e índices pluviométricos mais que satisfatórios à manutenção da vida.
O geólogo do Inpe e assessor da Agência Espacial Brasileira (AEB), Paulo Roberto Martini, tem sua teoria para esse fenômeno, em que a desertificação dessas regiões ocorrerá se o transporte de ar úmido for bloqueado ou escasseado, por ação natural ou antrópica. Exatamente o, aparentemente, vem ocorrendo. Investigações geomorfológicas mostraram que entre os anos 1000 e 1300 houve secas generalizadas e populações inteiras desaparecerem nas Américas. E isso pode ocorrer novamente, agora potencializado pela devastação de origem antrópica, ou seja, por iniciativa humana. “O solo da região Sul e Sudeste tem potencial enorme para se tornar desértico, basta não chover regularmente. A distribuição da umidade evitou que essa região da América do Sul fosse transformada num imenso deserto”, argumenta Martini. Mas ações humanas podem alterar radicalmente as opções adotadas pela Natureza.
A gestão dos recursos hídricos passou por uma grande transformação no Brasil no fim do século passado, quando as empresas estaduais de água e saneamento perderam o monopólio do mercado. Muitas foram municipalizadas e outras privatizadas, além de terem continuado a existir companhias estaduais, como o caso da Sabesp, em São Paulo, referência para o setor. A Sabesp é a única empresa de saneamento a fazer parte do Índice Dow Jones Sustainability, e do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&F-Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. O período de mudanças, no entanto, não foi tranquilo nem a gestão privada se mostrou um bom negócio em todos os casos. A cidade de Manaus, por exemplo, foi a primeira capital a privatizar os serviços. O abastecimento não deveria, aliás, ser problema para um município que tem quase 10% da água doce do planeta fluindo à sua porta, pelos rios Negro, Solimões que formam o Amazonas. Em 2000, a gestão em Manaus foi transferida para a francesa Suez, a mesma que, por sua administração desastrada, quase provocou um golpe de Estado na Bolívia.
Para os franceses, parecia fácil enfrentar esse desafio. Em Manaus havia muita água disponível e uma população de quase 2 milhões de habitantes que deveria pagar por ela. Tradicionalmente, o serviço de água da cidade era ruim, portanto, “bastaria oferecer um bom abastecimento” para a conta fechar. Mas esse raciocínio não era tão elementar quanto parece. Como o serviço público nunca funcionou, a elite urbana de Manaus nunca dependeu dele. A maior parte das casas e condomínios abastados tem seu abastecimento garantido por poços artesianos, serviço que, depois de funcional, é gratuito, sem a tradicional cobrança mensal de outras regiões.
A empresa francesa ficou apenas com a gestão do consumo da população pobre e com a obrigação de recolher o esgoto da cidade, pelo qual também não se pagava, uma vez que a taxa de esgoto está embutida na conta de água. Em 2007, a Suez saiu da Amazônia e a Águas do Amazonas continuam privatizadas, mas agora sob a gestão de um grupo nacional que teve de renegociar as condições do contrato de concessão com a prefeitura.
O esgoto não tratado tem impacto sobre outro setor estratégico da economia, o turismo. Principalmente no Nordeste, a presença de “línguas negras” a cruzar praias que deveriam ser refúgios ambientais assusta os operadores turísticos e preocupa o setor hoteleiro.
Um dos indicadores fundamentais de desenvolvimento social é o acesso à água de boa qualidade e a coleta e tratamento universal de esgotos, setores em que o Brasil ainda tem muito a fazer. Pesquisa realizada pela organização Trata Brasil, que estuda gestão de água e esgotos no Brasil mostra que menos de 40% do todo o esgoto gerado nas 100 maiores cidades brasileiras é recolhido e tratado antes de ser lançado de volta nos mananciais, o que significa em números absolutos que cerca de 8 bilhões de litros de esgoto sanitário são lançados em rios, lagos e no Oceano Atlântico diariamente. Apenas para se ter uma ideia: é o bastante para encher 3.200 piscinas olímpicas a cada dia.
EM SÍNTESE: A água é um direito social e um insumo econômico de primeira necessidade. O Brasil precisa de uma gestão eficiente do recurso não apenas para garantir o acesso à água de qualidade pela população, mas também para garantir o bom desempenho da economia. 

Fonte: Dal Marcondes – Jornalista e Diretor da Envolverde

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

VASO SANITÁRIO ISRAELENSE


Quinto lugar na lista das doenças fatais, a diarreia ceifa a vida de 2,46 milhões de pessoas a cada ano. Entre as crianças de até 5 anos é a segunda maior causa de morte em todo o mundo. Para José Luiz Aziz, professor da Faculdade de medicina do ABC, “a situação de morte por diarreia pode melhorar com hábitos de higiene e saneamento básico”.
Em entrevista ao programa 60 Minutos Bill Gates, CEO da Microsoft, falou dos desafios da Fundação Bill e Melinda Gates. Dirigida pelo seu pai William H. Gates e contando com um orçamento mastodôntico de 38 bilhões de dólares, a fundação é a maior organização não governamental do mundo. Sendo o principal doador, Gates tem um papel preponderante nos destinos dos recursos. Na entrevista ao programa da rede de televisão norte-americana CBS, Gates afirmou que o propósito maior da fundação é desenvolver mecanismos que permitam a erradicação de algumas das principais doenças do mundo, entre elas a malária, a tuberculose, a aids e a diarreia.
Gates está a par disso e lançou um desafio para pesquisadores de todo o mundo: Reinventar o vaso sanitário.
REVOLUCIONARIA FORMA DE USAR O BANHEIRO
Citado pela primeira vez na história em 1596, o vaso sanitário revolucionou os cuidados com saúde de toda a humanidade. Até seu surgimento, as fezes eram descartadas das mais aberrantes formas, inclusive lançadas pelas janelas dos castelos em plena via pública, prática que causava, além do desconforto estético, mau-cheiros e doenças.
A invenção do vaso sanitário foi uma revolução não só no visual das cidades mas, principalmente na redução das mortes por diversos tipos de doenças. Mantendo praticamente o mesmo sistema básico – suporte para sentar-se e água para conduzir os detritos – os vasos sanitários mais comuns utilizam uma média de 6 a 8 litros de água para cada uma das descargas. E é justamente aí que entra um dos problemas que aflige a humanidade desde o remoto ano de 1596: O que fazer com o desperdício desta água e com o destino dos dejetos.
Mesmo tratando-se de um equipamento extremamente simples, 40% da população mundial não tem acesso a banheiro, fato que levou Bill Gates a desafiar centenas de pesquisadores a reinventar o vaso sanitário. Entretanto, num pequeno país do Oriente Médio, já havia uma empresa que estava à frente de todos eles no desenvolvimento de pesquisas: Israel.
Encravado numa região que dispõe de poucos mananciais de água, Israel tem que pensar a todo momento em alternativas que reduzam o desperdício deste bem precioso. Foi nessa linha de pesquisa que a empresa Paulee CleanTec apresentou seu projeto e recebeu da fundação de Gates um prêmio inicial de US$ 110 mil.
O que existe de mais revolucionário no vaso sanitário do banheiro desenvolvido pela empresa israelense é que ele não só não necessita de descargas, como recicla 100% dos dejetos nele depositados. Sólidos e líquidos são reaproveitados imediatamente, sem a necessidade de água, energia nem – incrível! – redes de esgotos.
O banheiro israelense separa automaticamente resíduos sólidos e líquidos em compartimentos diferentes. Quando o usuário dá a descarga, o vaso sanitário inicia um processo químico que converte os resíduos sólidos, incluindo papel higiênico, em cinzas estéreis e converte e recicla os resíduos líquidos. Isto leva menos de 30 segundos.
O mais impressionante ainda é que este processo também está integrado num sistema responsável pela geração de eletricidade que é utilizada para lavar e esterilizar o vaso e fornecer iluminação para o banheiro. No telhado do banheiro encontra-se um pequeno painel solar que funciona como fonte extra de energia para o sistema. As cinzas estéreis resultantes dos resíduos sólidos é rica em potássio, fósforo e azoto que após retiradas do compartimento de coleta podem ser utilizadas como composto orgânico totalmente seguro e estéril.
VANTAGENS DO BANHEIRO ISRAELENSE
1. O banheiro pode ser fixo ou portátil;
2. Trata-se de um ambiente totalmente auto-suficiente, sem necessidade de infra-estrutura adicional;
3. Ele processa todos os tipos de resíduos em segundos, 100% dos dejetos transformam-se em cinzas estéreis;
4. O vaso não requer uma fonte de água;
5. O banheiro não necessita estar ligado ao sistema de esgotos;
6. O equipamento é simples e de fácil manutenção;
7. Não necessita rede elétrica, pois gera seu próprio fornecimento de energia;
8. É feito de material resistente e tem uma vida útil extremamente longa:
9. É 100% amigo do ambiente, utilizando apenas produtos químicos seguros;
10. O custo de instalação é extremamente baixo.
O PASSO ALÉM
Partindo do mesmo princípio, a empresa israelense está prestes a revolucionar também a forma como lidamos com os dejetos dos nossos animais de estimação. A empresa adaptou a tecnologia dos tais vasos sanitários incorporando-a a pequenos bastões que recolhem as fezes de cães reciclando-as em apenas 20 segundos! As pessoas podem passear com seus cães e assim que eles defecarem o bastão recolhe as fezes sem que a pessoa tenha que utilizar sacos plásticos e nem mesmo abaixarem-se. Logo depois, transformada em cinzas, ela passa a ser adubo para qualquer planta que estiver nas proximidades.
A contribuição da empresa israelense vai além da questão estética, pois não se limita apenas a eliminar apenas resíduos fétidos que sujam nossos pés. As fezes dos cães contém parasitas, bactérias e vírus que podem contaminar as águas subterrâneas, os rios, lagos e oceanos se não forem descartados corretamente. Se as fezes do cão são deixadas em gramados e em parques, parasitas podem ser transferidos para quem tiver contacto com estes gramados.
Já o “banheiro” desenvolvido para gatos chega a ser uma verdadeira peça de arte. Levando em consideração as características próprias destes animais, cuja natureza os leva a enterrarem suas fezes, o banheiro felino dispõe de uma divisão contendo areia e de outra onde encontra-se o reciclador. As fezes são colhidas da areia e depositadas no reciclador sendo assim processadas, da mesma forma que nos outros banheiros.
A eliminação dos resíduos dos gatos é uma questão mais problemática do que a dos cães, uma vez que a urina do gato contém produtos químicos tóxicos, tais como amônia, aminas, e Methanethiol. Já as fezes contém parasitas que podem prejudicar os seres humanos e outros animais. A toxoplasmose é uma das doenças parasitárias mais comuns e o gato um dos mais eficazes transmissores. O parasita encontrado em suas fezes pode sobreviver ao tratamento de águas residuais e, em seguida, percorrer os rios até chegar ao mar. Acredita-se que a morte de lontras marinhas, baleias e botos nos EUA e no Reino Unido podem estar ligadas à ação deste parasita.
Os produtos desenvolvidos pela Paulee CleanTec estarão disponíveis no mercado à partir do final de 2013, não havendo ainda previsão de lançamento no Brasil. Veja agora o processo todo que envolve o tratamento das fezes dos bichanos e no final um vídeo mostra como o Ashpoopie processa as fezes dos cães.
FUTURO
Com o passar do tempo, não é difícil imaginar que todos nós possamos ter em nossas casas banheiros baseados na tecnologia que está sendo desenvolvida por esta genial empresa israelense. Indiscutivelmente a implementação destes banheiros significarão não apenas conforto para nossas vidas como uma significativa redução de custos para as empresas de construção, pois eles não requerem canos, caixas de distribuição e fossas. Nossos bolsos agradecerão e o meio ambiente mais ainda.
 
Fonte: www.noticiasdesiao.wordpress.com

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Geração de energia eólica deve continuar crescendo nos próximos anos


A capacidade de geração de energia eólica no Brasil deverá passar dos atuais 8,7 mil megawatts (MW) para 24 mil MW nos próximos oito anos. A estimativa do governo, que consta no Plano Decenal de Expansão de Energia, é que em 2024 o parque eólico brasileiro deverá responder por 11,5% de toda a energia gerada pelo país. Até o fim de 2016, a capacidade instalada deve chegar a 11 mil MW, segundo projeções da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeolica). A energia produzida com a força dos ventos é a que apresenta o maior crescimento no país. Entre novembro de 2014 e novembro de 2015 a capacidade instalada do setor cresceu 56,9% em relação aos 12 meses anteriores, de acordo com o Ministério de Minas e Energia. No ano passado, foram inauguradas mais de 100 usinas eólicas no país, com investimentos de R$ 19,2 bilhões. Atualmente, existem 349 usinas eólicas instaladas no Brasil, a maioria na região Nordeste.
“A energia eólica no Brasil é algo razoavelmente novo e essa indústria foi sendo construída com bases muito sólidas porque temos um recurso eólico muito bom no Brasil, um dos melhores do mundo e, ao entender e saber explorar esse recurso nós colocamos a eólica em uma situação de vantagem comparativa e competitiva muito grande”, diz a presidente da Abeeolica, Elbia Gannoum.
Para a coordenadora da campanha de Energias Renováveis do Greenpeace, Larissa Rodrigues, o panorama para a expansão da capacidade de geração desta energia no país é otimista, especialmente levando em conta que o desenvolvimento do setor aconteceu com maior força na última década. No entanto, ela avalia que a meta de alcançar 24 mil MW de capacidade instalada em 2024 ainda é tímida. “Quando você pega o que já está instalado hoje e o que está sendo construído, o que sobra não é muita coisa. Pelo que estamos vendo hoje, para 2024 poderíamos ter muito mais”, diz.
Transmissão
O escoamento da energia produzida pelas usinas eólicas foi um problema para os primeiros parques construídos, que ficaram prontos sem ter um sistema de transmissão concluído para levar a energia a outras regiões. Segundo a Abeeolica, isso aconteceu porque houve um desencontro entre os cronogramas de obras das usinas de geração de energia e das de linhas de transmissão.
“Hoje não tem mais aquele atraso e os próximos [projetos] tendem a não atrasar mais, porque o modelo é outro”, diz a presidente da Abeeolica. Desde 2013, os editais para a contratação de energia eólica condicionam a compra de energia desse tipo de fonte à garantia de conexão junto à rede de transmissão.
A entidade estima que cerca de 300 MW de capacidade instalada em 14 parque eólicos do Rio Grande do Norte e da Bahia estejam com problemas de conexão à linhas de transmissão. “Esse percentual não é relevante, é menos de 5% do total”, avalia Elbia.
Para o Greenpeace, o escoamento da energia é o principal gargalo para a expansão das eólicas no país. Larissa Rodrigues diz que o atrelamento da contratação à garantia de linhas de transmissão prejudica o setor. “No fundo, isso é muito ruim para a indústria eólica, porque quem faz a usina não é o mesmo agente que faz a linha de transmissão, são coisas completamente separadas no setor elétrico”, avalia.
Custo
O custo de geração da usina eólica, que era um entrave para o crescimento do setor há alguns anos, já não é mais obstáculo. Atualmente, ela é a segunda fonte de energia mais barata, atrás da energia hidrelétrica. “A eólica já chegou no seu grau máximo de competitividade, quando se tornou a segunda energia mais barata do Brasil em 2011”, diz Elbia.
Segundo ela, atualmente cerca de 70% dos equipamentos utilizados na geração de energia eólica no Brasil são produzidos no país. “Ao construir essa cadeia produtiva somando ao recurso dos ventos, nós temos um potencial eólico disponível para atender as necessidades do Brasil”.
Para a representante do Greenpeace, o debate sobre o custo da energia eólica atualmente é um mito, pois com o avanço da indústria o setor se tornou competitivo. “Há 10 anos quando se falava em energia eólica no país era uma coisa de maluco, ninguém acreditava. Hoje em dia só se fala nisso”, avalia Larissa Rodrigues.
Papel Social
O presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim, destaca que, além dos benefícios para a redução dos gases do efeito estufa, a expansão da energia eólica cumpre também um papel social. Isso porque pequenos proprietários arrendam parte de suas terras para colocar os aerogeradores e ganham uma renda extra por isso.
“A forte expansão da geração eólica no país é um elemento importante para o Brasil atingir a meta acordada na COP 21 para redução dos gases do efeito estufa. Além do benefício ao planeta, por menos emissões, tem ainda o benefício local, não apenas pela redução da poluição regional, mas também pelo benefício social ligado à renda que é gerada por essa atividade, que vem sendo desenvolvida geralmente em áreas mais pobres do Brasil”, avalia Tolmasquim.
Segundo estimativas da Abeeolica, cada família que arrenda suas terras para a instalação de aerogeradores ganha cerca de R$ 2,3 mil por mês e o no ano passado foram pagos cerca de R$ 5,5 milhões por mês em arrendamentos.
Os parques instalados atualmente possuem cerca de 87,5 mil hectares arrendados e 3% destas áreas são ocupadas com os equipamentos eólicos. O restante pode ser utilizado para agricultura, pecuária, piscicultura entre outras atividades. 

Fonte: Agência Brasil

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Como era o Brasil há 100 milhões de anos


Há 140 milhões de anos, no início do período Cretáceo, o Brasil era coberto por um vastíssimo deserto de dunas muito maior que o Saara. Este deserto desapareceu ao ser engolido por um oceano de lava produzido pelo maior extravasamento de magma dos últimos 500 milhões de anos. Sete entre as dez maiores erupções vulcânicas, inclusive as três maiores, que ocorreram no planeta neste período aconteceram no Sudeste brasileiro. O panorama geológico que os pesquisadores brasileiros estão compondo de nosso país é estarrecedor.
O mais recente trabalho que procura atar três peças basilares desse quebra-cabeça colossal, as três bacias geológicas que sustentam a porção Centro-Sul do território brasileiro, acaba de ser publicado no Journal of South American Sciences. Um de seus autores é o geólogo Alessandro Batezelli, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O projeto teve o apoio da Fapesp.
O foco do estudo de Batezelli são as bacias sedimentares do Centro-Sul do Brasil, com destaque para as bacias Bauru, Sanfranciscana e dos Parecis. Entender o modo como os eventos tectônicos e climáticos interagiram em cada uma delas no tempo e no espaço ajuda a estabelecer uma sequência cronológica.
A descoberta daqueles eventos não foi obra de Batezelli e do geógrafo Francisco Sergio Bernardes Ladeira, o coautor do trabalho. Mas é a sua pesquisa, assim como a de outros profissionais, que nos permite tecer um esboço do drama geológico que se desenrolou no Centro-Sul brasileiro entre 135 e 60 milhões de anos atrás.
A ruptura de Gondwana
No período Jurássico, entre 201 e 145 milhões de anos atrás, a América do Sul e a África encontravam-se unidas. Ficavam bem no meio do antigo megacontinente Gondwana. As correntes de ar saturadas de umidade do antigo oceano Pantalássico não tinham força para atingir o distante centro de Gondwana. Daí a formação de um imenso deserto, o deserto Botucatu. É o mesmo processo que se vê hoje na Ásia Central, cujo clima desértico se deve à sua grande distância dos oceanos.
Quase não há fósseis preservados do Jurássico no Brasil. Explicações, para tanto, seriam o clima inóspito do deserto e também a difícil preservação de fósseis num ambiente de dunas. No entanto, o deserto Botucatu não era desabitado. Até agora, foram achadas apenas algumas pegadas fossilizadas de mamíferos e de répteis.
Há 140 milhões de anos, a América do Sul e a África começaram a se separar para dar início à abertura do Atlântico Sul. “O fenômeno que provocou a ruptura de Gondwana foi o surgimento de fraturas profundas na crosta terrestre”, diz Batezelli. Por essas fraturas começou a extravasar magma do interior do planeta em quantidades descomunais. À medida que as fendas iam se alargando, e os continentes se afastando, mais lava extravasava, num processo contínuo e muito prolongado, que perdurou de 137,4 a 128,7 milhões de anos atrás.
O epicentro desta megaerupção vulcânica, “ou mais apropriadamente um megaextravasamento basáltico, conhecido como Província Vulcânica Paraná-Etendeka,” como observa o geólogo, foi o Sudeste e o Sul do Brasil, que se encontravam ligados às terras da atual Namíbia, na África.
A Província Vulcânica Paraná-Etendeka foi formada a partir de diversas fendas, ou megavulcões, os maiores de que se têm notícia. Não eram vulcões explosivos, como os que estamos acostumados a ver. “Não havia erupções explosivas. As fendas jorravam continuamente”, diz Batezelli. “Daqui até a África havia fendas através das quais a lava extravasou sobre uma área gigantesca e por um período muito prolongado.” Através daquelas fendas transbordaram 2,3 milhões de km3 de lava, que cobriram totalmente 1,5 milhão de km2 – equivalente a cobrir o Estado do Amazonas, o maior do país, com uma camada de lava de 1,5 km de altura.
A origem do aquífero Guarani
Toda essa lava enterrou as antigas dunas do deserto Botucatu e foi-se acumulando em camadas sucessivas até erigir a Serra Geral, que cobre os Estados do Paraná, Santa Catarina e o norte do Rio Grande do Sul – além do leste paraguaio e o norte da Argentina. Sua areia foi cozinhada a uma temperatura de 1.200 graus centígrados e prensada pelo peso do magma. A areia acabou virando arenito, uma rocha bastante porosa que tem a propriedade de armazenar a água da chuva que é absorvida pelo solo.
No caso das dunas do deserto Botucatu, elas deram origem ao aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta, enterrado sob o chão do Centro-Sudoeste do Brasil. O aquífero Guarani comporta 37 mil km3 de água, equivalente a 1,6 vez o volume do maior lago do planeta, o Baikal, na Sibéria.
“Nas regiões onde as dunas entraram em contato direto com a lava, houve um aumento de temperatura tão grande que os sedimentos foram literalmente cozidos, formando um arenito mais duro e impermeável, que é usado hoje nas calçadas de mosaico português”, diz Batezelli. Já a lava resfriada formou basalto, e este, desgastado por cem milhões de anos de erosão, deu origem à terra roxa, o solo fértil que alavancou no século XIX as lavouras de café em São Paulo e no Paraná.
Um novo deserto
Há 128,7 milhões de anos, quando os extravasamentos de magma findaram, aquele gigantesco acúmulo de rocha vulcânica fez com que parte do Sudeste brasileiro sofresse um abatimento sob seu próprio peso, o que criou na superfície uma nova bacia sedimentar, a Bacia Bauru. E sobre esta bacia formou-se um novo deserto de dunas, porém menor que o anterior.
O Atlântico Sul mal começara a abrir. Ainda nem era um braço de mar, no máximo uma depressão alagada para onde convergiam os rios, os sedimentos e a erosão de dois continentes. Ou seja, as águas de Pantalassa – o oceano que rodeava a Pangeia – ainda estavam longínquas, assim como sua brisa úmida. Para acabar com as condições de secura do Centro-Sul do Brasil, seria preciso aguardar outros 60 milhões de anos, quando o Atlântico Sul, embora com menos da metade da abertura atual, pôde amenizar o clima.
De qualquer forma, aquela depressão que lentamente se alargava um par de centímetros por ano já ia se fazendo sentir no clima. O novo deserto de dunas, agora denominado Grupo Caiuá, não era tão grande como o antigo deserto Botucatu, afirma Batezelli. Era árido, mas pontilhado aqui e ali por oásis infestados de várias espécies de crocodilos terrestres, parentes extintos dos crocodilianos atuais.
Aqueles crocodilos viviam em terra firme, tinham patas longas e andavam como lobos. Os paleontólogos já descreveram mais de uma dúzia de espécies. A mais famosa é o famigerado baurusuchus, uma fera predadora. Mas havia também formas bizarras, com chifres ou com uma carapaça semelhante à dos tatus, como a do armadillosuchus, e até um crocodilo herbívoro, o esfagessauro.
As dunas do Caiuá existiram entre 125 e 100 milhões de anos atrás, quando cederam lugar a uma nova paisagem formada por rios e lagos. “O clima se tornou muito mais ameno, similar ao semiárido da Caatinga nordestina”, diz Batezelli. Essa nova depressão recebeu sedimentos que hoje pertencem ao Grupo Bauru, que existiu entre 80 e 60 milhões de anos atrás.
Aí sim os titanossauros proliferaram. A maioria das espécies brasileiras é dessa fase. Seus fósseis homenageiam o nome das cidades mineiras e paulistas próximas das quais foram encontrados, como uberabatitan e baurutitan.
A Bacia Sanfranciscana
Concomitante a estes 60 milhões de anos de transformações na Bacia Bauru, “mais para o norte, na Bacia Sanfranciscana, ocorreram fenômenos muito parecidos, embora sem serem os mesmo”, salienta Batezelli. A Bacia Sanfranciscana engloba o oeste de Minas Gerais, Goiás, Tocantins e o oeste da Bahia, estendendo-se até o sul do Piauí.
Durante o Cretáceo inferior, na Bacia Sanfranciscana se desenvolveram campos de dunas eólicas. Dezenas de milhões de anos depois, já no Cretáceo superior, também aconteceu vulcanismo. “Bem no limite entre as bacias Bauru e Sanfranciscana se formaram diversos vulcões”, revela Batezelli pautado em sua pesquisa. “Eles apresentaram um extravasamento bem menor do que o vulcanismo que deu origem à Serra Geral, porém foram responsáveis por formar uma região mais elevada entre as Bacias Bauru e Sanfranciscana. Foi como se a crosta inchasse por causa do calor das intrusões magmáticas.”
Seu relevo é perceptível até hoje, nas crateras no interior das quais estão as cidades de Araxá, Tapira e Poços de Caldas. “As grandes jazidas de nióbio assim como outras riquezas minerais do sudeste de Minas Gerais estão relacionadas a este vulcanismo.”
O vulcanismo na Bacia Sanfranciscana ocorreu há menos de 100 milhões de anos atrás. A maior parte da lava que extravasou desses vulcões avançou sobre as dunas.
A evolução da Bacia dos Parecis é semelhante ao ocorrido nas bacias Bauru e Sanfranciscana. Ainda no período Jurássico superior, ocorreu um vulcanismo modesto nos Parecis. Há 145 milhões de anos atrás, já no Cretáceo superior, formaram-se rios e lagos na região compreendida entre o norte do Mato Grosso e o oeste de Rondônia. Com o passar do tempo o clima foi se tornando mais árido e o cenário paisagístico se transformou num campo de dunas.
Em resumo, e comparando os cenários das três bacias sedimentares, conclui-se que do Cretáceo inferior ao Cretáceo superior, um período de mais de 60 milhões de anos, houve um deslocamento dos desertos de dunas no território brasileiro das direções sudeste para noroeste.
Das dunas eólicas aos rios e lagos
Durante o Cretáceo inferior, a região Sudeste era dominada por uma paisagem desértica formada por dunas eólicas. Já no Cretáceo superior, a maior parte da região Sudeste passou a ter uma paisagem constituída por rios e lagos, enquanto que desertos de dunas surgiram no norte de Minas, em Goiás, Tocantins, Matogrosso e Rondônia. “Isso demonstra que, com o passar do tempo, houve uma diminuição nas condições de umidade de sul/sudeste para o centro-oeste/norte do Brasil”, revela Batezelli.
Todo o drama geológico descrito acima se desenrolou em paralelo ao alargamento do Atlântico Sul. Suas brisas que cresciam em volume e intensidade semeavam cada vez mais umidade na porção sudeste do continente.
Esse era o cenário dominante quando da extinção em massa do fim do Cretáceo, há 65 milhões, que deu fim aos dinossauros. Esse legado geológico, geográfico e climático formou o novo meio ambiente no qual os mamíferos da era Cenozoica puderam se adaptar. Mas esta é uma outra história.  
Fonte: Agência FAPESP

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O impacto de metais tóxicos na produtividade agrícola


A contaminação do solo e da água por metais tóxicos constitui um grave problema para a agricultura, prejudicando os produtores, com a perda de produtividade das plantas afetadas; e os consumidores, com efeitos danosos que o consumo dessas plantas pode acarretar para a saúde.
As várias facetas do problema foram estudadas em profundidade pelo projeto temático “Estresse oxidativo induzido por metais: novas abordagens”. Desenvolvida ao longo de cinco anos, de 2010 a 2015, a pesquisa teve o apoio da FAPESP. “Os dois metais que estudamos foram o alumínio e o cádmio. E a planta eleita para a nossa investigação foi o tomateiro”, disse à Agência FAPESP o pesquisador responsável pelo projeto, Ricardo Antunes de Azevedo, professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).
“Diferentemente do que ocorre com o zinco, o níquel e outros metais, o alumínio e o cádmio não são utilizados pelos seres vivos como nutrientes”, afirmou o pesquisador. “Ao contrário, sua toxicidade prejudica as plantas de várias maneiras – por exemplo, inibindo o desenvolvimento radicular e, assim, rebaixando a absorção de água e nutrientes pelas raízes. As consequências podem ir da diminuição da produtividade da lavoura até a morte das plantas.”
A grande quantidade de alumínio é uma característica natural da crosta terrestre. Ele é, de fato, o elemento metálico mais abundante da crosta. Como a hidrólise do alumínio produz íons de hidrogênio, a forte presença desse metal constitui um dos principais fatores de acidificação do solo. “Em pH neutro, o alumínio é geralmente inofensivo, mas, em solos ácidos, pode ter um impacto muito negativo no desenvolvimento das plantas”, informou Azevedo.
O cádmio também é encontrado, porém, em quantidade muito menor. Nesse caso, sua presença se deve principalmente à poluição ambiental decorrente de fatores antrópicos, como, por exemplo, a mineração desse metal e a fabricação e descarte de produtos derivados, como pilhas de níquel-cádmio, pigmentos etc.
“O grande problema em relação ao cádmio, que pode estar presente no solo ou na água de irrigação, decorre do fato de que ele é facilmente absorvido e acumulado pela planta mesmo quando em concentrações muito baixas no ambiente. E, se essa planta vier a ser utilizada por animais ou seres humanos, o metal tóxico poderá eventualmente chegar ao organismo do consumidor”, informou o pesquisador.
Um aspecto muitas vezes negligenciado da questão e apontado pelo estudioso é que a contaminação por cádmio pode ocorrer mesmo quando a planta não é diretamente ingerida. É o caso, por exemplo, do tabaco. As folhas da planta acumulam cádmio e, durante a queima, o metal é eventualmente transferido ao consumidor por meio do sistema respiratório. Pesquisas demonstraram que a concentração de cádmio tende a ser maior em fumantes do que em não fumantes.
Produtividade da lavoura
Além dos danos potenciais à saúde dos consumidores, a contaminação por cádmio pode comprometer também a produtividade da lavoura, devido principalmente ao estresse causado nas plantas. “As plantas sofrem dois tipos de estresses: abióticos, provocados por metais, falta de água, excesso de temperatura etc.; e bióticos, provocados por patógenos. Faz parte do metabolismo celular normal a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs). Mas há um mecanismo de autorregulação que mantém essa produção abaixo do patamar crítico. Em situação de estresse, porém, ocorre um desbalanceamento e a produção de EROs torna-se muito maior. Dependendo do nível, isso pode levar até mesmo à morte da planta” explicou Azevedo.
A pesquisa abordou a questão por vários ângulos. Especialmente interessante foi o estudo feito com a técnica de enxertia. “Trata-se de uma técnica bastante antiga e muito disseminada na agricultura. Utilizamos a enxertia para entender como uma parte da planta, contaminada por cádmio, sinaliza para a outra parte, não contaminada, que está sendo estressada”, disse o pesquisador.
Na enxertia, o porta-enxerto é constituído pela raiz e base do caule; a ele é acoplado o enxerto, composto pela parte aérea da planta. O procedimento adotado no estudo foi cultivar plantas em presença do metal e plantas sem presença do metal e, depois, fazer a enxertia recíproca. “Em outras palavras, trocamos as partes de cima das plantas, conectando ao porta-enxerto contaminado o enxerto não contaminado e ao porta-enxerto não contaminado o enxerto contaminado. A ideia é simples, mas sua realização prática exigiu um grande número de controles, pois o próprio processo da enxertia já constitui um estresse para a planta, mesmo que temporário”, afirmou Azevedo.
O resultado foi publicado no artigo “Cadmium stress antioxidant responses and root-to-shoot communication in grafted tomato plants”, na revista Biometals .
A conclusão foi que ocorre a sinalização do estresse tanto em um sentido como no outro. Não apenas o metal da raiz é transportado para a parte aérea (o que era de esperar, apesar da quantidade transportada variar), mas também o metal da parte aérea é transportado para a raiz (e este não era um resultado intuitivo).
Outro tópico importante explorado pela pesquisa foi a genotoxicidade. No caso específico, tratou-se de investigar o efeito do metal tóxico na estrutura dos ácidos nucleicos da planta. Isto é, se o cádmio se ligava ou não ao DNA, e, caso a resposta fosse positiva, que consequências resultariam disso. “Verificamos que, sim, o cádmio altera bastante a taxa de divisão celular e provoca uma série de aberrações cromossômicas. Entre elas, a formação de quebras e pontes cromossômicas durante a mitose – o processo de divisão celular. Isso ocorre mesmo em concentrações muito baixas do metal. Estas não provocam nenhuma manifestação visível de que a planta esteja estressada. Mas as alterações intracelulares são muito expressivas”, declarou o pesquisador.
As consequências do efeito dos metais dependem de uma série de variáveis. Uma delas é o tipo de cultivar exposto ao metal. Há cultivares mais tolerantes e cultivares menos tolerantes. Ou seja, existe uma diversidade de mecanismos envolvidos, que podem modificar a taxa de absorção do cádmio pela planta ou reduzir o efeito do metal uma vez absorvido. Por isso, o projeto também envolveu a mutagênese e a seleção de mutantes mais tolerantes. Para o produtor, a compreensão de tais mecanismos possibilita que estes sejam explorados em programas de melhoramento, com vistas a obter plantas mais resistentes. Mas, para o consumidor, o consumo de uma planta mais resistente pode até mesmo significar, eventualmente, a absorção ainda maior do metal tóxico.
“Para um consumo totalmente seguro, seria preciso saber se o solo ou água utilizados no cultivo estavam ou não contaminados, e, estando, em que parte da planta se acumulou o metal, se naquela que será consumida ou naquela que será descartada. Há uma grande quantidade de fatores, o que torna o estudo bastante complexo”, ponderou Azevedo.
Por isso, outra vertente do projeto temático foi exatamente estudar o processo de fitorremediação, isto é, de recuperação de solos contaminados mediante o plantio de espécies vegetais altamente resistentes capazes de absorver e, assim, retirar os metais pesados do ambiente. São plantas como a Dolichos lablab, que acumulam grande quantidade de cádmio sem ter seu desenvolvimento afetado, podendo ser utilizadas como fitoestabilizadoras de cádmio.
Artigo a respeito foi submetido para publicação no Journal of Soils and Sediments e encontra-se atualmente no prelo: “Physiological and biochemical responses of Dolichos lablab L. to cadmium support its potential as a cadmium phytoremediator”.
No total, o projeto temático já ensejou mais de 50 artigos em publicações especializadas e há vários outros em processo de elaboração. Toda a experimentação foi realizada em estufa, em plantios no solo ou em sistema hidropônico. O tomateiro foi escolhido por ser uma planta-modelo em genética, com grande quantidade de cultivares e grande quantidade de mutantes. Além disso, uma das cultivares dessa espécie, a Micro-Tom (tomate-cereja miniatura), que produz uma planta de pequeno porte e frutos pequenos, tem um ciclo de vida muito curto, ao redor de 90 dias, o que constitui uma grande vantagem para a prática experimental. Finalmente, o tomate é um produto economicamente importante, consumido em larga escala no mundo inteiro, tanto in natura como por meio de derivados. 

Fonte: Agência FAPESP

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sistema de bioretenção de água de chuva pode ajudar a combater enchentes


Pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo (EESC-USP), estão estudando um sistema de drenagem de água de chuva alternativo aos utilizados hoje no Brasil, que pode contribuir para minimizar o problema de enchentes em cidades. Alguns resultados do estudo, realizado no âmbito de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, foram apresentados na conferência “Water, megacities and global change”, realizada no início de dezembro na Unesco, em Paris, paralelamente à 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP21).
“O sistema permite captar a água da chuva antes de ser lançada diretamente em um rio ou córrego de uma cidade, por exemplo, para que possa ser tratada previamente e infiltre no solo com velocidade e volume adequados, diminuindo o risco de inundações. Por isso, pode ser útil para a prevenção de enchentes”, disse Altair Rosa, participante do projeto, à Agência FAPESP.
A solução de drenagem consiste na construção em áreas que costumam sofrer com alagamentos de filtros subterrâneos permeáveis, compostos por camadas sobrepostas de grama, areia, brita e manta geotêxtil, que permitem reter poluentes e deter temporariamente volumes excessivos de água de chuva que escoa dentro deles.
As estruturas, chamadas tecnicamente de sistemas de biorretenção, funcionam como um reservatório para o amortecimento da água da chuva, armazenando-a por um determinado período de tempo de modo que possa posteriormente infiltrar ou ser absorvida naturalmente pelo solo.
Dessa forma, elas ajudam a reduzir o volume de água de chuva e a retardar os picos de cheias em bacias ou microbacias, como rios e córregos, de regiões urbanizadas, explicou Altair, que participa do projeto por meio de uma Bolsa concedida pela FAPESP.
“O sistema pode colaborar bastante nesse sentido porque faz com que a água da chuva que recebe ajude no abastecimento do lençol freático, sem ter que passar por uma tubulação, por exemplo, até chegar ao seu destino final. Ele possibilita reter e tratar água de chuva que poderia ser desperdiçada”, afirmou.
A camada superficial do sistema, composta por vegetação, permite reter a água da chuva de modo a não causar problemas de erosão.
Em conjunto com as camadas de areia, brita e a manta geotêxtil, a camada de vegetação também auxilia na retenção de poluentes carreados pela água da chuva, detalhou Altair.
“Ao passar por essa série de filtros, a água da chuva torna-se cada vez mais tratada antes de chegar ao lençol freático”, disse.
Desempenho do sistema
A fim de avaliar o desempenho do sistema, os pesquisadores mapearam oito áreas críticas para enchentes no campus 2 da USP em São Carlos, no interior paulista, e selecionaram uma delas para implantá-lo.
Para tentar prever se o sistema teria capacidade de armazenar a quantidade de água de chuva prevista para cair na área onde foi instalado, eles usaram um novo método de dimensionamento de sistemas de drenagem que desenvolveram no âmbito do projeto em colaboração com grupos de outras universidades e instituições de pesquisa.
Um dos diferenciais do método é usar simulações de cenários climáticos futuros e dados como a extensão, o grau de urbanização e de vegetação e a previsão de novas construções na área onde a técnica de drenagem será implementada.
Além disso, integra indicadores de qualidade e quantidade de água de chuva e estimativas de riscos de contaminação da população, que, de acordo com os pesquisadores, é um aspecto não abordado pelos métodos tradicionais de dimensionamento de sistemas de drenagem.
Com isso, o método de dimensionamento possibilita construir sistemas de drenagem de forma modular e escalonada ao longo do tempo e que a obra seja executada progressivamente, permitindo maior flexibilidade no custeio e eficiência no funcionamento.
“Esse método de dimensionamento de sistemas de drenagem modulares e escalonáveis é fundamental para países como o Brasil, onde há uma taxa crescente de urbanização e um regime de chuvas muito superior ao de outros países”, apontou Eduardo Mario Mendiondo, professor da EESC-USP e pesquisador responsável pelo projeto.
Resultados preliminares indicaram que o novo modelo de dimensionamento foi capaz de prever os volumes de água de chuva que o sistema de biorretenção é capaz de armazenar com uma boa margem de segurança e mesmo em picos de cheia.
Por sua vez, o sistema implementado no campus da USP de São Carlos também se mostrou capaz de reter toda a quantidade de água de chuva que recebeu nas últimas semanas, incluindo a do final de dezembro, quando foram registradas na cidade do interior paulista chuvas com volume superior a 60 milímetros, superando a média dos últimos 80 anos.
“Vimos que mesmo com um volume de chuva inesperado o sistema funcionou e foi capaz de reter toda a quantidade de água que recebeu”, afirmou Altair.
Para monitorar a qualidade e quantidade da água escoada, os pesquisadores instalaram sensores na entrada e na saída do sistema de biorretenção, além de um sistema de transmissão de dados em tempo real a fim de possibilitar o controle do funcionamento.
“A ideia do uso desses sensores é que, com o advento de tecnologias voltadas a tornar as cidades inteligentes, no futuro próximo seja possível que os próprios cidadãos ou moradores de um edifício, por exemplo, controlem o tratamento da poluição da água por esses sistemas de biorretenção”, afirmou Mendiondo, que também é coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Algumas análises preliminares indicaram que os sensores de monitoramento foram capazes de medir com bastante acurácia os níveis de metais e substâncias, como nitrito, nitrato e fósforo, na água recebida pelo sistema.
“Como o sistema foi construído recentemente, estimamos que, com o passar do tempo, a qualidade da água e a infiltração no solo irão melhorar progressivamente”, disse Altair.
Vantagens
De acordo com os pesquisadores, algumas das vantagens do sistema alternativo de drenagem de água são o fato de poder ser modificado e expandido de acordo com o grau de urbanização de uma determinada área, é barato, não interfere na paisagem local e ajuda a controlar a poluição em áreas com tráfego intenso de veículos, uma vez que os poluentes são carreados pela água da chuva escoada para o sistema.
Além disso, também pode servir para outras finalidades, como tratamento de efluentes, e ser usado em conjunto com os sistemas de drenagem urbana usados hoje nas cidades, baseados em canalizações.
“Em vez de colocar só um bueiro em uma via, por exemplo, é possível associá-lo a esse sistema de drenagem alternativo, que permite não somente escoar essa água da chuva, como também fazer com que se infiltre ou seja absorvida pelo solo e retenha parte da poluição que é gerada na bacia em razão da constante urbanização”, disse Mendiondo.
Segundo ele, essas soluções de drenagem sustentável, que aliam técnicas da Engenharia, Arquitetura, Paisagismo e Química, entre outras áreas, são conhecidas e usadas desde o início da década de 1990 em países como França, Austrália e Estados Unidos.
No Brasil ainda são novas e vêm sendo estudadas por seu grupo na EESC-USP nos últimos dez anos a partir de experimentos-piloto, como o que estão sendo realizados agora no campus 2 da USP de São Carlos.
“Essas técnicas compensatórias podem contribuir como elementos viáveis em planos de adaptação que estão sendo cada vez mais realizados em países que já estão lidando com a gestão de riscos potenciais de desastres oriundos da urbanização excessiva e os impactos das cheias nas cidades”, avaliou Mendiondo.
Segundo o pesquisador, a ideia é que essas técnicas possam, por um lado, oferecer subsídios para novas pesquisas e, por outro, promover mudanças no longo prazo nos sistemas de drenagem urbana usados no Brasil que, de acordo com ele, têm gerado conflitos pela falta de manutenção, obsolescência e incapacidade de evitar desastres e impactos causados por enchentes e inundações.
“As enchentes e inundações são responsáveis por perdas econômicas e humanas. Por isso, a Política Nacional de Defesa e Proteção Civil e o Marco Internacional de Redução de Riscos de Desastres, que orientou as discussões da COP21, estabeleceu como prioritárias ações para mitigar seus impactos”, afirmou. 
Fonte: Agência FAPESP

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Zika foi identificado em humanos nos anos 50 mas só virou epidemia agora


PORQUE
Descoberto em humanos pela primeira vez em Uganda, na África, em 1952, o vírus zika se espalhou pela Ásia e pelo Pacífico até chegar às Américas. O primeiro caso registrado no continente foi na ilha de Páscoa, no Chile, em 2007, mas a maior epidemia já registrada ocorre atualmente no Brasil.
Apesar de existir há mais de meio século, por que somente agora o zika espalhou-se de forma ampla?
Especialistas ouvidos pela BBC Brasil apontam um alinhamento de fatores que permitiram a popularização do vírus a níveis “alarmantes”, com casos reportados em mais de 24 países nas Américas, como definiu a diretora-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margaret Chan.
Estimativas da organização apontam que haverá entre 3 e 4 milhões de casos de zika somente no continente durante este ano. Desses, de 500 mil a 1,5 milhão ocorrerão no Brasil. “Há diversas determinantes para isso”, explica Antoine Flahault, diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Genebra. A popularização das viagens internacionais é um dos motivos. “O aumento dos deslocamentos com aviões ajuda na disseminação do vírus. É muito fácil exportar casos de zika, dengue e chikungunya”.
Outro aspecto é a popularidade do vetor. “Há ampla presença do mosquito. O Aedes aegypti está praticamente em todos os lugares do mundo e é muito difícil erradicar esse mosquito”, continua Flahaut. Segundo ele, em contraste com o mosquito transmissor da malária, Anopheles, o Aedes aegypti se adapta muito bem ao meio urbano e isso contribui para inflar ainda mais a epidemia.
Em países onde houve desenvolvimento econômico levando comunidades a migrar do campo para a cidade foi registrada uma diminuição nos casos de malária. Mas o mesmo fenômeno não se aplica à zika, justamente pela alta adaptabilidade do mosquito, explicou à BBC Brasil.
O aquecimento global também poderia estar contribuindo para a propagação do vírus. “Já foi comprovado por climatologistas o impacto (das mudanças climáticas) no surto de chikungunya no Oceano Índico em 2005 e eu suponho que, embora ainda não comprovado, isso também se aplique ao zika”, disse Flahault.
MUDANÇAS
O diretor do departamento de vigilância e resposta do ECDC, Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, órgão da União Europeia responsável por questões de saúde, Denis Coulombier, aponta que a maior circulação de pessoas não é a única justificativa para o dramático aumento dos casos.
“Sim, há um aumento nas viagens, mas você não pode excluir que houve uma mudança no vírus, o que ocorreu ao longo do tempo. Houve também uma mudança no mosquito. Sabemos que as populações de mosquitos mudam com o tempo, se adaptam. Isso é claramente multifatorial”, aponta Coulombier.
Ele diz acreditar que as mutações sofridas pelos organismos envolvidos no ciclo da doença – o vírus e o vetor – contribuíram decisivamente para a propagação atingir o “ponto limiar”.
“É um efeito de ponto limiar. Por muitos anos houve pequenos surtos que não resultaram em uma grande fogueira, mas de repente um caso irá mais adiante e resultará em um grande incêndio, que é a epidemia”, continua.
Para Coulombier, a América Latina é especialmente suscetível por não ter sido anteriormente exposta ao vírus. Segundo ele, as populações não possuem anticorpos de resistência à doença.
“Sabemos que nesses casos a primeira onda de infecções é a que registra maior número de casos, porque o vírus está chegando a uma população completamente virgem”.
Alarmante
Em declaração no plenário do encontro executivo da OMS, a diretora-geral da organização, Margaret Chan, reforçou que o vírus mudou rapidamente de perfil, passando de uma “ameaça moderada” para uma de “proporções alarmantes”.
Alguns aspectos que preocupam a comunidade internacional são justamente os pontos levantados por Flahault e Coulombier: a dispersão internacional do vírus e a falta de imunidade na população.
Margaret Chan ainda destacou o fenômeno climático El Niño como catalisador da popularização do mosquito. Esses e outros pontos de preocupação internacional serão abordados numa reunião emergencial convocada para a próxima segunda-feira (8 de Fevereiro 2016). Também estarão na pauta do encontro a associação – ainda não completamente desvendada – entre o vírus e a má-formação de bebês, a ausência de vacina e de diagnóstico imediato e a busca de um alinhamento a respeito de eventuais alertas internacionais emitidos a viajantes.  

Fonte: G1