sexta-feira, 10 de abril de 2015

Energia Hidrelétrica – Vantagens e desvantagens


A energia hidrelétrica é o resultado do aproveitamento do curso dos rios e seus desníveis, usando a força da água (energia potencial) para movimentar turbinas que geram energia mecânica, e é transmitida, por fios, à população em forma de energia elétrica.

O Brasil tem hoje, nas hidrelétricas, sua principal fonte de energia, quase 95% da energia consumida no país é gerada por esse tipo de usina, o restante é proveniente de usinas nucleares e termelétricas. Com seus grandes rios, o país possui o terceiro maior potencial hidráulico do planeta, ficando atrás somente de países como China e Rússia.

As usinas hidrelétricas no Brasil podem ser classificadas quanto à sua potência para geração de energia, em dois tipos: As que produzem de 1 MW (Megawatt) a 30 MW e possuem reservatório com área menor que 3 km² são classificadas como Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH’s). Aquelas que produzem mais que 30 MW são classificadas como Grandes Centrais Hidrelétricas (GCH’s).

Vantagens das hidrelétricas

Apesar do alto custo para a instalação de uma usina hidrelétrica, o preço do seu combustível (a água) é zero. É uma fonte de energia renovável e não emite poluentes, contribuindo assim na luta contra o aquecimento global. E para um país como o Brasil, cortado por imensos rios, torna-se uma fonte de energia vantajosa e altamente sustentável.

Desvantagens

Apesar de ser uma fonte renovável e não emitir poluentes, as hidrelétricas causam grande impacto ambiental e social. Para a instalação desse tipo de usina e construção de barragens, que refreiam o curso dos rios, é necessário o alagamento de grandes áreas. Essa prática acaba acarretando problemas à fauna e flora local, como:

•a destruição da vegetação natural,

•assoreamento do leito dos rios,

•desmoronamento de barreiras,

•extinção de certas espécies de peixes e torna o ambiente propício a transmissão de doenças como malária e esquistossomose.

Os impactos sociais também são visíveis com o deslocamento das populações ribeirinhas e indígenas, algumas que viviam na região há muitos anos, e são obrigadas a mudar-se por causa do alagamento para a construção dos lagos artificiais. E por serem geralmente construídas distante dos centros de consumo, o processo de transmissão de energia, que dá-se por fios, acaba tornando-se mais caro.

Quando o nível pluviométrico torna-se menor que o esperado, as hidrelétricas ficam com níveis de água abaixo do requisitado para a produção de energia normal e a geração de energia é transferida para outros tipos de usinas como as termelétricas e nucleares, encarecendo a conta do consumidor.

E apesar de ser uma fonte limpa de energia, apenas 18% da energia mundial é produzida pelas hidrelétricas, pois a maioria dos países não possuem as condições naturais necessárias para a construção dessas usinas.

A energia hidráulica no Brasil

Atualmente, cerca de 75% da energia elétrica produzida no Brasil tem como fonte as usinas hidrelétricas. Rico em rios com excelentes potenciais hidrelétricos, o Brasil possui usinas em todas as regiões e continua investindo nesta fonte de energia.

Principais usinas hidrelétricas brasileiras

- Usina Binacional de Itaipu (parceria com o Paraguai) – localizada no rio Paraná tem capacidade 7.000 MW (parte brasileira)

- Usina de Tucuruí – localizada no rio Tocantins tem capacidade de 8.360 MW.

- Usina de Ilha Solteira - localizada no rio Paraná tem capacidade de 3.450 MW.

- Usina de Xingó - localizada no rio São Francisco tem capacidade de 3.160 MW.

- Usina de Paulo Afonso – localizada no rio São Francisco tem capacidade de 3.980 MW.

- Usina de Jirau – localizada no rio Madeira tem capacidade de 3.750 MW.

Curiosidade 1

A Inglaterra é a pioneira na produção de energia hidráulica no mundo. Foi neste país que as primeiras usinas hidrelétricas foram construídas na década de 1880.

Curiosidade 2

Usinas de fio d'água e Pequenas Centrais Hidrelétricas - Quando se fala em hidrelétrica, logo se pensa em usina de reservatório, com um grande lago artificial. Porém, graças à mudança na legislação ambiental, as novas hidrelétricas brasileiras são conhecidas como usinas de fio d'água. Elas criam um lago artificial muito menor que as usinas tradicionais, causando um impacto menor.

Apesar da vantagem ambiental, as usinas de fio d'água não são viáveis do ponto de vista da segurança energética. O reservatório criado por elas é apenas suficiente para que funcionem, porém, em períodos de seca prolongada, pode faltar água para que elas gerem eletricidade. "O reservatório das usinas tradicionais é o que garante seu funcionamento por um período maior do ano" explica. Recurso que as usinas de fio d'água não dispõem.

Outra modalidade que provoca um impacto ambiental menor é a chamada Pequena Central Hidrelétrica. Essas usinas têm reservatórios menores que as usinas de fio d’água, porém são mais caras, em relação à eletricidade produzida. Além disso, o potencial de geração delas é pequeno, o que não soluciona a crescente demanda energética do Brasil. Apesar disso, é um caminho positivo, que deve ser incentivado.

É apontado que a solução é o investimento em diferentes fontes de energia elétrica, uma complementando a outra. Apesar de mais poluentes, até as usinas térmicas podem ser utilizadas para produzir eletricidade, especialmente em épocas de seca. Deve-se fazer um equilíbrio de todas as fontes, hidrelétricas, térmicas e eólicas.



Fonte: www.estudopratico.com.br

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Energia - Usina Termoelétrica e Maremotriz


Energia Termoelétrica é toda e qualquer energia produzida por uma central cujo funcionamento ocorre a partir da geração de calor resultante da queima de combustíveis sólidos, líquidos ou gasosos. Os principais combustíveis utilizados nas usinas termoelétricas são o carvão mineral, a nafta, o petróleo, o gás natural e, em alguns casos, a biomassa.

O funcionamento de uma usina termoelétrica, também chamada de usina térmica, ocorre da seguinte forma: a queima do combustível propicia o aquecimento de água armazenada no reservatório, o que forma um vapor, que, por sua vez, é direcionado para as turbinas do gerador responsável pela produção de eletricidade.

Em geral, as fontes de energia utilizadas pelas termoelétricas não são renováveis, sendo a maioria de origem fóssil, o que eleva a preocupação sobre a disponibilidade desses recursos a médio e longo prazo. Além disso, questiona-se também a geração de poluentes para a produção de energia termoelétrica, que emite uma grande quantidade de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera.

O carvão mineral é muito utilizado pelas termoelétricas, uma vez que essa é a fonte mais abundante de energia e possui custos menos elevados. Além disso, as usinas ocupam uma área pequena e possuem um nível de produtividade quase duas vezes maior do que o das hidrelétricas, por exemplo. Por outro lado, os seus custos de construção são elevados, o que aumenta, por sua vez, o preço médio da energia para o consumidor.

É interessante observar que as usinas nucleares também são exemplos de geração de energia termoelétrica, pois nelas as reações nucleares são realizadas no intuito de aquecer a água e produzir vapor para, assim, gerar energia.

Outra consideração a ser feita a respeito das usinas termoelétricas é sobre o elevado consumo de água por elas realizado, o que gera novas críticas a essa forma de produção de energia. Utiliza-se água tanto para a produção de calor quanto para alimentar o sistema de refrigeração de suas turbinas, de modo que a escassez desse recurso pode tornar-se também um problema energético.

As usinas termoelétricas constituem a principal forma de produção de eletricidade no mundo atualmente, representando cerca de 70% da produção mundial. Elas são amplamente utilizadas pelos países desenvolvidos, o que acirra os debates nas conferências internacionais sobre recursos naturais e meio ambiente. No Brasil, onde o uso é predominantemente de usinas hidroelétricas, as termoelétricas atuam para abastecer as indústrias e também como fontes de reserva em casos de crise energética. Mesmo assim, elas não ultrapassam os 7,5% da produção nacional de eletricidade, e esse número só é alcançado quando todas as usinas estão em funcionamento no país.

Vantagens

- Em comparação com usinas hidrelétricas, são mais rápidas para se construir, podendo assim suprir carências de energia de forma mais rápida;

- Podem ser instaladas em locais próximos às regiões de consumo, reduzindo o custo com torres e linhas de transmissão;

- São alternativas para países que não possuem outros tipos de fontes de energia.

Desvantagens

- Como são usados combustíveis fósseis para queimar e gerar energia, há uma grande liberação de poluentes na atmosfera. Estes poluentes são responsáveis pela geração do efeito estufa e do aumento do aquecimento global. Portanto, este tipo de energia é altamente prejudicial ao meio ambiente.

- Outra desvantagem é que o custo final deste tipo energia é mais elevado do que a gerada em hidrelétricas, em função do preço dos combustíveis fósseis.

Energia Maremotriz

Existem diversas maneiras de se aproveitar a energia proveniente dos oceanos. Assim como a que se origina dos ventos e do sol, a energia vinda das águas dos oceanos - por meio da energia térmica e da energia contida no fluxo das marés, nas correntes marítimas e nas ondas - é classificada como limpa e auto sustentável.

A energia maremotriz é uma forma de produção de energia proveniente da movimentação das águas dos oceanos, por meio da utilização da energia contida no movimento de massas de água devido às marés. Dois tipos de energia maremotriz podem ser obtidas: energia cinética das correntes devido às marés; e energia potencial pela diferença de altura entre as marés alta e baixa.

O sistema de maremotriz é aquele que aproveita o movimento regular de fluxo do nível do mar (elevação e abaixamento). Funciona de forma semelhante a uma hidrelétrica: uma barragem é construída, formando-se um reservatório junto ao mar; quando a maré enche, a água entra e fica armazenada no reservatório, e, quando baixa, a água sai, movimentando uma turbina diretamente ligada a um sistema de conversão, gerando assim eletricidade.

A primeira usina maremotriz do mundo foi construída em La Rance, na França, em 1966. Hoje, essa forma de geração de energia é utilizada principalmente no Japão, na Inglaterra e no Havaí - mas há usinas maremotrizes em construção ou em fase de planejamento no Canadá, no México, no Reino Unido, nos EUA, na Argentina, na Austrália, na Índia, na Coréia e na Rússia.

Para a implementação desse sistema, é necessária uma situação geográfica favorável e uma amplitude de maré relativamente grande, que varia de local para local. O Brasil apresenta condições favoráveis à implementação desse sistema em locais como o litoral maranhense, em que a amplitude dos níveis das marés chega a oito metros. Os estados do Pará e do Amapá também apresentam condições favoráveis. Apesar disso ainda não há nenhuma usina maremotriz no Brasil.

A utilização deste tipo de energia poderá ser uma opção para um futuro bem próximo, porém devem ser levados em conta, neste tipo de empreendimento, os possíveis impactos ambientais associados à construção das usinas, além da necessidade de análise econômica da viabilidade do sistema.

Vantagens

- É uma fonte de energia limpa e renovável.

- É uma alternativa para países que por diversos motivos não podem gerar energia elétrica através de outras formas.

Desvantagens

- Necessidade de ter uma situação geográfica favorável, ou seja, presença de marés no litoral e desnível no solo do oceano.

- A implementação do sistema de uma usina maremotriz ainda é caro em relação ao sistema de hidrelétrica. Assim, a relação custo/benefício ainda não é vantajosa para muitos países.

- Pode ocorrer impacto ambiental na implantação do sistema, principalmente com relação ao ecossistema marinho.

- Baixo aproveitamento energético.



Fonte: www.suapesquisa.com

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Energia Nuclear - Vantagens e Desvantagens


A energia Nuclear e a sua possibilidade de utilização, que possuí elevados riscos, mas em contrapartida também possuí benefícios para a sociedade, conheça as vantagens e desvantagens na utilização da energia nuclear, pois esta controversa está a gerar variadas discussões a níveis internos e externos em muitos países.

A Energia Nuclear é vista como uma possível fuga ao alto consumo, e dependência externa do petróleo, mas como todas as outras energias teremos de fazer um balanço das suas vantagens e desvantagens.

O que é a Energia Nuclear

A energia nuclear está no núcleo dos átomos, nas forças que mantém unidos os seus componentes – as partículas subatômicas. Esta é libertada sob a forma de calor e energia electromagnética pelas reações nucleares.

Esta energia provém do urânio, principalmente, mas também pode ser do tório e do plutônio, se bem que nos principais casos e do urânio.

Existem dois tipos de recursos energéticos utilizados para produzir energia nuclear, o urânio e o Tório, dois minérios radioativos, embora seja o urânio o mais utilizado e conhecido, devido as reservas de urânio serem abundantes, o que não se põe em causa o seu esgotamento a curto – médio prazo.

O urânio é utilizado como combustível nos reatores nucleares, sob a forma de óxido, de liga metálica, ou ainda, de carboneto.

Certos reatores utilizam o urânio natural, mas a grande maioria, como o caso dos reatores moderados e arrefecidos com água normal, que equipam mais de dois terços das centrais nucleares usam como combustível, o urânio enriquecido.

O urânio é um elemento químico de símbolo U e de massa igual a 238 (92 protons e 146 neutrons). O urânio quando se encontra á temperatura ambiente encontra-se no estado sólido, este foi o primeiro elemento onde se descobriu a propriedade da radioatividade, foi descoberto em 1978.

A mais importante aplicação do urânio é a energética.

Vantagens da Energia Nuclear

A energia nuclear é uma energia não renovável, que como todas as outras têm as suas vantagens e desvantagens. Vejamos quais as principais vantagens da energia nuclear.

É um combustível mais barato que muitos outros como por exemplo o petróleo, o consumo e a procura ao petróleo fez com que o seu preço disparasse, fazendo assim, com que o urânio se tornasse um recurso, comparativamente com o petróleo, um recurso de baixo custo.

É uma fonte mais concentrada na geração de energia, um pequeno pedaço de urânio pode abastecer uma cidade inteira, fazendo assim com que não sejam necessários grandes investimentos no recurso.

Não causa nenhum efeito de estufa ou chuvas ácidas.

É fácil de transportar como novo combustível.

Tem uma base científica extensiva para todo o ciclo.

É uma fonte de energia segura, visto que até a data só existiram dois acidentes mortais.

Permite reduzir o deficit comercial.

Permite aumentar a competitividade.

Desvantagens da Energia Nuclear

Apesar das suas vantagens esta energia também tem as suas desvantagens. Vejamos:

Ser uma energia não renovável, como referido anteriormente, torna-se uma das desvantagens, visto que o recurso utilizado para produzir este tipo de energia se esgotará futuramente.

As elevadas temperaturas da água utilizada no aquecimento causa a poluição térmica pois esta é lançada nos rios e nas ribeiras, destruindo assim ecossistemas e interferindo com o equilíbrio destas mesmas.

O risco de acidente, visto que qualquer falha humana, ou técnica poderá causar uma catástrofe sem retorno, mas atualmente já existem sistemas de segurança bastante elevados, de modo a tentar minimizar e evitar que estas falhas existam, quer por parte humana, quer por parte técnica.

A formação de resíduos nucleares perigosos e a emissão causal de radiações causam a poluição radioativa, os resíduos são um dos principais inconvenientes desta energia, visto que atualmente não existem planos para estes resíduos, quer de baixo ou alto nível de radioatividade, estes podem ter uma vida até 300 anos após serem produzidos podendo assim prejudicar as gerações vindouras.

Pode ser utilizada para fins bélicos, para a construção de armas nucleares, está foi uma das primeiras utilizações da energia nuclear, os fins bélicos são a grande preocupação nível mundial, porque projetos nucleares como o do Irão, que ameaçam a estabilidade econômica e social.

Ser uma energia cara, visto que  tanto o investimento inicial, como posteriormente a manutenção das energias nucleares são de elevados custos, até mesmo o recurso minério, visto que existem países que não o possuem, ou não em grande abundância, tendo assim, que comprar a países externos.

O plutônio 239 leva 24.000 anos para ter sua radioatividade reduzida à metade, e cerca de 50.000 anos para tornar-se inócuo.

Os seus efeitos, visto que na existência de um acidente, as consequências deste iram fazer-se sentir durante vários anos, visto que a radioatividade continuará a ser libertada durante vários anos.



Fonte: www.portal-energia.com

terça-feira, 7 de abril de 2015

Energia Eólica


A energia eólica - produzida a partir da força dos ventos - é abundante, renovável, limpa e disponível em muitos lugares. Essa energia é gerada por meio de aerogeradores, nas quais a força do vento é captada por hélices ligadas a uma turbina que aciona um gerador elétrico. A quantidade de energia transferida é função da densidade do ar, da área coberta pela rotação das pás (hélices) e da velocidade do vento.

A avaliação técnica do potencial eólico exige um conhecimento detalhado do comportamento dos ventos. Os dados relativos a esse comportamento - que auxiliam na determinação do potencial eólico de uma região - são relativos à intensidade da velocidade e à direção do vento. Para obter esses dados, é necessário também analisar os fatores que influenciam o regime dos ventos na localidade do empreendimento. Entre eles pode-se citar o relevo, a rugosidade do solo e outros obstáculos distribuídos ao longo da região.

Para que a energia eólica seja considerada tecnicamente aproveitável, é necessário que sua densidade seja maior ou igual a 500 W/m2, a uma altura de 50 metros, o que requer uma velocidade mínima do vento de 7 a 8 m/s. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, o vento apresenta velocidade média igual ou superior a 7 m/s, a uma altura de 50 m, em apenas 13% da superfície terrestre. Essa proporção varia muito entre regiões e continentes, chegando a 32% na Europa Ocidental.

A utilização dessa fonte para geração de eletricidade, em escala comercial, começou na década de 1970, quando se acentuou a crise internacional de petróleo. Os EUA e alguns países da Europa se interessaram pelo desenvolvimento de fontes alternativas para a produção de energia elétrica, buscando diminuir a dependência do petróleo e carvão.

Quanto à aplicação desse tipo de energia no Brasil, pode-se dizer que as grandes centrais eólicas podem ser conectadas à rede elétrica uma vez que possuem um grande potencial para atender o Sistema Interligado Nacional (SIN). As pequenas centrais, por sua vez, são destinadas ao suprimento de eletricidade a comunidades ou sistemas isolados, contribuindo para o processo de universalização do atendimento de energia. Em relação ao local, a instalação pode ser feita em terra firme (on-shore) ou no mar (off-shore).

De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Brasil possui 248 megawatts (MW) de capacidade instalada de energia eólica, derivados de dezesseis empreendimentos em operação. O Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, elaborado pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), mostra um potencial bruto de 143,5 GW, o que torna a energia eólica uma alternativa importante para a diversificação do "mix" de geração de eletricidade no País. O maior potencial foi identificado na região litoral do Nordeste e no Sul e Sudeste. O potencial de energia anual para o Nordeste é de cerca de 144,29 TWh/ano; para a região Sudeste, de 54,93 TWh/ano; e, para a região Sul, de de 41,11 TWh/ano.

Ainda que a principal referência de potencial eólico do Brasil, o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, não apresente avaliações a respeito da potencialidade energética dos ventos na plataforma continental do vasto litoral brasileiro - que tem nada menos que 7.367 km de extensão e conta com avançado desenvolvimento em tecnologias offshore em função do desenvolvimento e capacitação para a prospecção e produção de petróleo e gás natural neste ambiente - esta alternativa não pode ser ignorada e esta via deve ser ainda cuidadosamente avaliada, tendo em vista que estes projetos apresentam um maior volume específico de energia elétrica gerada ao beneficiarem-se da constância dos regimes de vento no oceano.

As aplicações mais favoráveis desta fonte energética no Brasil estão na integração ao sistema interligado de grandes blocos de geração nos sítios de maior potencial. Em certas regiões, como por exemplo, a região Nordeste, no vale do Rio São Francisco, pode ser observada uma situação de conveniente complementariedade da geração eólica com o regime hídrico, seja no período estacional ou na geração de ponta do sistema - ou seja, o perfil de ventos observado no período seco do sistema elétrico brasileiro mostra maior capacidade de geração de eletricidade justamente no momento em que a afluência hidrológica nos reservatórios hidrelétricos se reduz. Por outro lado, no período úmido do sistema elétrico brasileiro, caracterizado pelo maior enchimento destes reservatórios, o potencial de geração eólica de eletricidade se mostra menor.

Assim, a energia eólica se apresenta como uma interessante alternativa de complementariedade no sistema elétrico nacional.

Embora se insira dentro do contexto mundial de incentivo por tecnologias de geração elétrica menos agressivas ao meio ambiente, como qualquer outra tecnologia de geração de energia, a utilização dos ventos para a produção de energia elétrica também acarreta em alguns impactos negativos - como interferências eletromagnéticas, impacto visual, ruído, ou danos à fauna, por exemplo. Atualmente, essas ocorrências já podem ser minimizadas e até mesmo eliminadas por meio de planejamento adequado, treinamento e capacitação de técnicos, e emprego de inovações tecnológicas.

Aspectos ambientais ligados à operação de usinas eólicas

Emissão de gases poluentes - O Brasil, por possuir uma matriz de geração elétrica composta predominantemente por fontes renováveis - principalmente de origem hidráulica - apresenta grandes vantagens no que se refere à emissão evitada de CO2.

Além do aspecto de diversificação da matriz energética, uma outra possibilidade atraente para empreendimentos baseados no aproveitamento da energia eólica inclui a comercialização do CO2 evitado por meio dos certificados de redução de emissão de carbono no âmbito do Protocolo de Kyoto. Os países desenvolvidos, para alcançarem suas metas poderão se utilizar dos "mecanismos de flexibilidade", dentre os quais ressalta-se o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O MDL permite que países desenvolvidos, por meio da implantação de projetos energéticos em países em desenvolvimento, alcancem suas metas de redução da emissão de CO2 ou outros gases de efeito estufa. O MDL é um mecanismo disseminador de tecnologia com grande potencial de expansão, o qual poderá incentivar o setor privado a investir em projetos energéticos no âmbito das energias renováveis, entre elas a energia eólica.

Das tecnologias disponíveis com emissões de CO2 abaixo do nível da energia eólica, somente as grandes hidrelétricas são hoje comercialmente competitivas. Entretanto, a utilização de grandes hidrelétricas tem sido discutida em países como o Canadá e o Brasil (dois países que apresentam grandes plantas hidrelétricas instaladas cada vez mais longe dos centros consumidores), onde a decomposição da vegetação submersa nos grandes reservatórios produz uma quantidade substancial de metano, que registra um potencial de aquecimento 50 vezes maior do que o CO2.

Embora as emissões de CO2 decorrentes das grandes barragens não se dêem no mesmo patamar das emissões de CO2 originadas da queima de combustíveis fósseis em termoelétricas, gases como o CH4 e N2O - oriundos da decomposição do material orgânico - possuem, respectivamente, um potencial de aquecimento global 56 e 280 vezes maior do que o CO2, para um horizonte de 20 anos.

O uso do solo e a adequação da topografia

Poluição visual - A reação visual às estruturas eólicas varia de pessoa para pessoa. Trata-se de um efeito que deve ser levado em consideração, na medida em que o aumento do rendimento das turbinas eólicas vem acompanhado pelo aumento em suas dimensões e na altura das torres. Como consequência, também o espaço requerido entre as turbinas torna-se maior, diminuindo, portanto, a densidade na área da fazenda eólica - o que possibilita o aproveitamento do solo para usos alternativos no entorno do empreendimento.

Dentre as diferenças de percepção destes empreendimentos, a turbina eólica pode ser vista como um símbolo de energia limpa e bem-vinda, ou, negativamente, como uma alteração de paisagem. A forma de percepção das comunidades afetadas visualmente pelos parques eólicos também depende da relação que essas populações têm com o meio ambiente. Acrescenta-se que os benefícios econômicos gerados pela implantação das fazendas eólicas muitas vezes são cruciais para amenizar potenciais atitudes ou percepções negativas em relação à tecnologia.

A paisagem modificada pelas fazendas eólicas traz outra possibilidade: a de atrair turistas, o que é um fator de geração de emprego e renda.

Impacto sobre a fauna - Um dos aspectos ambientais a ser enfatizado diz respeito à localização dos parques eólicos em áreas situadas em rotas de migração de aves. O comportamento das aves e as taxas de mortalidade tendem a ser específicos para cada espécie e para cada lugar.

Ao analisar os estudos sobre os impactos na fauna alada, observa-se que parques eólicos podem trazer impactos negativos para algumas espécies. Entretanto, estes impactos podem ser reduzidos a um nível tolerável por meio do planejamento do futuro da geração eólica, considerando aspectos de conservação da natureza como "evitar a instalação de parques eólicos em áreas importantes de habitat; evitar áreas de corredor de migração; adotar arranjo adequado das turbinas no parque eólico; usar torres de tipos apropriados (tubulares); e utilizar sistemas de transmissão subterrâneos".

O ruído é outro fator que merece ser mencionado, devido não só à perturbação que causa aos habitantes das áreas onde se localizam os empreendimentos eólicos, como também à fauna local - como, por exemplo, a sua interferência no processo reprodutivo das tartarugas.

Outros aspectos ambientais - O impacto sobre o solo ocorre de forma pontual à área de instalação da base de concreto onde a turbina é instalada. Vários testes de compactação do solo são feitos para avaliação das condições de instalação de cada turbina. Por não haver uso de combustíveis fósseis, o risco de contaminação do solo por resíduo líquido devido à operação e manutenção de parques eólicos é reduzido ou quase nulo. Esta característica minimiza também os riscos de contaminação do lençol freático.

É importante lembrar que a taxa de ocupação no solo de uma turbina eólica está restrita à pequena área referente à construção da base de concreto para sustentação de toda a máquina: a área em torno da base de concreto fica totalmente disponível para o aproveitamento agrícola ou pecuário; e a vegetação em torno da turbina eólica pode ser mantida intacta.

A energia eólica e o Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica

Considerando-se que as fontes alternativas ainda têm custos mais elevados do que as convencionais, em abril de 2002 o Governo Federal criou, por meio da Lei nº 10.438, o Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). Com o objetivo de ampliar a participação das fontes alternativas na matriz elétrica, o Proinfa prevê, em sua primeira fase, a instalação de 3.300 MW de potência no sistema elétrico interligado - sendo 1.423 MW de usinas eólicas, 1.192 MW de pequenas centrais hidrelétricas (PCH) e 685 MW de biomassa.

Dentre outros benefícios, o Proinfa apresenta:

- A diversificação da matriz energética e a consequente redução da dependência hidrológica;

- A racionalização de oferta energética por meio da complementaridade sazonal entre os regimes eólico, de biomassa e hidrológico, especialmente no Nordeste e Sudeste. No rio São Francisco, por exemplo, cada 100 megawatts médios produzidos por fonte eólica proporcionaria uma economia de água da ordem de 40 m3/s;

- A possibilidade de elegibilidade, referente ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), pela Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, criada pelo Decreto Presidencial de 7 de julho de 1999, dos projetos aprovados no âmbito do Proinfa".

Diversas empresas estrangeiras já mostraram interesse em estudos de viabilidade técnica para implementação de grandes parques eólicos no Brasil. Além dos 1,4 GW de projetos já contratados no Proinfa, quatro em operação, representando 158,3 MW, e 50 parques em implantação, representando 1.264,6 MW. Existem, ainda, cerca de 3,5 GW em projetos eólicos autorizados pela Aneel que não integram a carteira de projetos do Proinfa. Empresas, como a Wobben Wind Power Industria e Com. Ltda, SIIF Énergies do Brasil Ltda, Enerbrasil Ltda, Ventos do Sul, Eletrowind e outras, já mantêm torres de medições e estudos de infra-estrutura para instalação e operação de parques eólicos, que nesta fase, em sua grande maioria, encontram-se planejados para instalação ao longo da costa da região Nordeste.

A segunda fase do Proinfa, prevista para iniciar após o término da primeira, e terminar em 20 anos após o início do programa - portanto, em 2022 -, supõe que as três fontes eleitas (PCH, biomassa e eólica) atinjam uma participação de 10% da geração de energia elétrica brasileira. Supõe ainda contratar, a cada ano, no mínimo 15% do acréscimo de geração do setor. Com base nestes números e considerando a projeção da demanda feita nos quatro cenários considerados no Plano Nacional de Energia - PNE 2030 (EPE, 2006b) -, um prolongamento destes números de 2022 a 2030, um fator de capacidade de 0,30, e uma divisão equitativa entre as três fontes, chega-se a uma potência instalada de geração de energia elétrica em usinas eólicas, no fim do horizonte, entre 9 GW e 13 GW.

Nesse contexto, vale citar que já está em operação o parque eólico de Osório, localizado no litoral norte do Rio Grande do Sul. Esse empreendimento é composto por 75 torres de aerogeradores e tem uma capacidade instalada estimada em 150 MW, sendo a maior usina eólica da América Latina e a segunda no mundo.



Fonte: www.mma.gov.br

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Energia Solar Fotovoltaica


A Energia Solar Fotovoltaica é a energia da conversão direta da luz em eletricidade (Efeito Fotovoltaico). O efeito fotovoltaico é o aparecimento de uma diferença de potencial nos extremos de uma estrutura de material semicondutor, produzida pela absorção da luz. A célula fotovoltaica é a unidade fundamental do processo de conversão.

Atualmente o custo das células solares é um grande desafio para a indústria e o principal empecilho para a difusão dos sistemas fotovoltaicos em larga escala. A tecnologia fotovoltaica está se tornando cada vez mais competitiva, tanto porque seus custos e são decrescendo, quanto porque a avaliação dos custos das outras formas de geração está se tornando mais real, levando em conta fatores que eram anteriormente ignorados, como a questão dos impactos ambientais.

O atendimento de comunidades isoladas tem impulsionado a busca e o desenvolvimento de fontes renováveis de energia. No Brasil, por exemplo, 15% da população não possui acesso à energia elétrica. Coincidentemente, esta parcela da população vive em regiões onde o atendimento por meio da expansão do sistema elétrico convencional é economicamente inviável. Trata-se de núcleos populacionais esparsos e pouco densos, típicos das regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte.

No Brasil a geração de energia elétrica por conversão fotovoltaica teve um impulso notável, através de projetos privados e governamentais, atraindo interesse de fabricantes pelo mercado brasileiro. A quantidade de radiação incidente no Brasil é outro fator muito significativo para o aproveitamento da energia solar.

Vantagens e desvantagens da energia solar

Além do uso progressivo da energia solar residencial, existe cada vez mais a sua utilização na produção de energia elétrica a grande escala através de parques e usinas solares, em todo o mundo.
Conheça também as vantagens e desvantagens da energia solar no que se refere ao seu aproveitamento através de parques e usinas solares.

A energia solar é a energia produzida pelo Sol e é convertida em energia útil por seres humanos, quer para a produção de eletricidade ou de calor algo (como as suas principais aplicações). Anualmente, o Sol produz 4 milhões de vezes mais energia do que consumimos, para o seu potencial é ilimitado.
Para se ter uma ideia, em apenas um segundo o sol produz mais energia (internamente) que toda energia usada pela humanidade desde o começo dos tempos.

Uma outra forma de se exprimir esta imensa grandeza energética, basta dizer que a energia que a terra recebe por ano vinda do sol, representa mais que 15000 vezes o consumo mundial anual de energéticos.

15% da energia emitida pelo sol que chega a terra é refletida de volta para o espaço. Outros 30% são perdidos na evaporação da água a qual sobe para a atmosfera produzindo chuva. A energia solar é também absorvida pelas plantas, pela terra e oceanos. A energia restante, para manter o equilíbrio energético do planeta, deve então ser emitida sob a forma de radiação térmica.

Considerando que a energia solar está disponível de forma absolutamente gratuita, pergunta-se por que é seu aproveitamento ainda é tão limitado? O problema é que a energia solar apresenta-se sob a forma disseminada e a sua captação, pelo menos para potências elevadas, requer instalações complexas e dispendiosas.

O aproveitamento da energia solar poderá em teoria e a longo prazo tornar-se como a grande solução para todos os problemas energéticos da nossa sociedade, apesar de todas as vantagens aparentes possui também desvantagens no decorrer do seu aproveitamento.

Vantagens da energia solar

- A energia solar não polui durante seu uso. A poluição decorrente da fabricação dos equipamentos necessários para a construção dos painéis solares é totalmente controlável utilizando as formas de controlo existentes atualmente.

- As centrais necessitam de manutenção mínima.

- Os painéis solares são a cada dia mais potentes ao mesmo tempo que seu custo vem decaindo. Isso torna cada vez mais a energia solar uma solução economicamente viável.

- A energia solar é excelente em lugares remotos ou de difícil acesso, pois sua instalação em pequena escala não obriga a enormes investimentos em linhas de transmissão.

- Em países tropicais, como o Brasil, a utilização da energia solar é viável em praticamente todo o território, e, em locais longe dos centros de produção energética sua utilização ajuda a diminuir a procura energética nestes e consequentemente a perda de energia que ocorreria na transmissão.

Desvantagens da energia solar

- Existe variação nas quantidades produzidas de acordo com a situação do clima (chuvas, neve), além de que durante a noite não existe produção alguma, o que obriga a que existam meios de armazenamento da energia produzida durante o dia em locais onde os painéis solares não estejam ligados à rede de transmissão de energia.

- Locais em latitudes médias e altas (Ex: Finlândia, Islândia, Nova Zelândia e Sul da Argentina e Chile) sofrem quedas bruscas de produção durante os meses de Inverno devido à menor disponibilidade diária de energia solar. Locais com frequente cobertura de nuvens (Londres), tendem a ter variações diárias de produção de acordo com o grau de nebulosidade.

- As formas de armazenamento da energia solar são pouco eficientes quando comparadas por exemplo aos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), e a energia hidroelétrica (água).

- Os painéis solares têm um rendimento de apenas 25%.



Fonte: www.ambientebrasil.com.br

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O que não aprendemos com Dorothy Stang


O dia 12 de fevereiro de 2005 deveria ser histórico na comunidade do Carmelino, no Município de Porto de Moz, foz do rio Xingu, Estado do Pará. Autoridades como a então Ministra Marina Silva e o Presidente do Incra, Rolf Hackbart, pousavam de helicóptero para participar de uma reunião com mais de mil ribeirinhos da Reserva Extrativista Verde para Sempre, criada no ano anterior. O Estado Brasileiro parecia finalmente ter chegado ali naquele cantinho da Amazônia, cujos moradores lutavam havia anos contra madeireiros ilegais e grileiros pelo apoio ao uso sustentável dos recursos da área. Era para ser uma celebração. Mas o rumo daquele encontro – e da história da região – virou do avesso na hora do almoço.

A reunião foi abruptamente interrompida por uma sentença, que me foi anunciada por telefone pelo pároco Porto de Moz, padre Ney: “Carlos, mataram a Dorothy.” Eu caí desmaiado. A reunião acabou. E o governo do então presidente Lula levava um tapa na cara daqueles que mandam e desmandam na Amazônia.

Eu havia conversado com a irmã Dorothy Stang pela última vez no dia 24 de dezembro de 2004. Liguei para desejar-lhe um bom Natal e tentar deixar uma mensagem de esperança.

As ameaças dos grileiros e madeireiros em Anapu eram tantas e tão explícitas que seguiam até um certo método: começava com pressões sobre as famílias para abandonar os lotes de terra. Depois, os roçados e as florestas dos lotes eram incendiados e “pulverizados” com semente de capim (cresce rápido e domina o terreno, tornando difícil estabelecer um novo roçado de milho, mandioca ou feijão). Tiros eram ouvidos à noite, próximos às casas. Resistindo à pressão até aquele momento, a família recebia a visita indesejada de capangas dos grileiros, que atiravam no fundo de todas as panelas da casa enquanto subiam o tom das ameaças verbais. Se o caboclo ainda insistisse em permanecer no lote, sua casa era incendiada e ele podia ser morto.

Esse era o cotidiano da irmã Dorothy. Eram essas as coisas que ela relatava quando ligava para mim. Vivendo desde a década de 60 no Brasil e desde o início da década de 80 na região de Anapu, a freira não tinha medo. Mas pedia ajuda.

Pouco mais de um mês antes do Natal, eu havia encontrado o Ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, num evento em Manaus. Conversei com ele sobre a situação em Anapu, a violência contra as comunidades locais e as ameaças à irmã Dorothy, ao Padre Amaro e a outras lideranças locais por fazendeiros e madeireiros de Altamira e Transamazônica. Após me ouvir, o ministro pediu que eu enviasse documentos que tivesse a respeito para seu gabinete, para que seus assessores pudessem se inteirar do assunto e para tomada de decisão.

A tarefa era simples, pois irmã Dorothy, a quem encontrei várias vezes ao longo daquele ano de 2004, tinha me dado cópias das muitas denúncias feitas ao Ibama, ao Incra, e à Polícia Civil, com detalhes da ação daqueles que queriam expulsar à força famílias e comunidades inteiras em Anapu das terras que pleiteavam do Incra, em Projetos de Desenvolvimento Sustentável, uma forma de assentamento da reforma agrária adequado às áreas florestais. Eu já havia enviado a documentação seguidas vezes à PF, sem sucesso.

O ministro desceu a ordem: no início de dezembro de 2004, recebi um telefonema de um dos diretores da Polícia Federal que, por dever de ofício, pediu que eu explicasse o que estava acontecendo. Contei a ele sobre o que sabia sobre a violência em Anapu e as ameaças de morte contra Dorothy e seus companheiros. Ouvi logo como resposta que a PF recebia várias denúncias como aquela por semana. Depois de eu insistir sobre a gravidade da situação e ameaças de morte, o diretor pediu que eu lhe enviasse documentos e me disse que iriam fazer uma averiguação no local. Enviei mais uma vez cópias do calhamaço de documentos que a irmã Dorothy havia me passado.

Na véspera daquele Natal de 2004, disse à missionária que não sabia se a PF iria ou não ao local, mas que, pelo menos, tinham dito que iriam avaliar a situação. E despedi-me desejando-lhe uma noite de paz junto àqueles que eram sua família, o padre Amaro e os comunitários de Anapu. Infelizmente, o primeiro agente da PF – com a roupa do corpo, sem viatura ou reforços – só botou os pés em Anapu em fevereiro de 2005, para investigar o assassinato.

A missionária católica Dorothy Mae Stang chegou ao Brasil em 1966, para servir de início no Maranhão e depois na Amazônia. Quando chegou a Altamira, pediu ao bispo do Xingu, D. Erwin Kräutler, que a instalasse “no lugar mais pobre daqui”. Ganhou a missão de atuar como professora na miserável Anapu, na Transamazônica.

Na década de 1990, a vida da irmã Dorothy mudaria de vez, com o anúncio, pelo governo Fernando Henrique, do Plano Avança Brasil. Tratava-se de um inédito assalto de obras de infraestrutura planejadas para a Amazônia, que incluíam o asfaltamento da BR-163, da Transamazônica e a hidrelétrica de Belo Monte, um plano dos militares engavetado desde o governo Collor.

A mera expectativa das obras fez com que centenas de famílias de lugares ainda mais pobres que Anapu, no Maranhão e no Piauí, afluíssem à região, na esperança de obter emprego na construção da usina. Pelo mesmo motivo, reacendeu-se em todo o sul do Pará uma corrida de grileiros às terras públicas, já que o preço da terra subiria. O desmatamento e a extração ilegal de madeira explodiram. À irmã Dorothy, que às vezes recebia em Anapu uma família de migrantes por dia, só restava acolher essas pessoas e tentar dar-lhes alternativa de vida. Por isso ela lutou para criar os PDS. E por isso ela morreu com seis tiros à queima-roupa na beira da estrada.

A atrocidade cometida contra uma mulher de 73 anos, freira, estrangeira, e o fato de uma ministra de Estado estar na mesma região do Xingu no dia do crime criaram um desses momentos raros no Brasil: um instante em que o país parece, ainda que por pouco tempo, insurgir-se contra a própria estupidez. O plano de prevenção e controle do desmatamento na Amazônia, que transitava de gaveta em gaveta no governo desde 2004 começou a sair do papel ali, com a megaoperação do Exército para combater crimes fundiários e ambientais no sul do Pará.

A comoção nacional e internacional (num tempo em que o Palácio do Planalto se importava com essas coisas) deram ao fraco Ministério do Meio Ambiente cacife político para operar na Amazônia conforme o plano. Uma área de 8 milhões de hectares no coração da zona de conflito fundiário do Pará foi interditada para a criação de áreas protegidas, para combater a grilagem. Os créditos de bancos públicos que financiavam o desmatamento e a pistolagem foram depois cortados por decreto presidencial. Naquele 12 de fevereiro de 2005, a taxa de desmatamento começou a cair na Amazônia.
Passados dez anos dos disparos feitos por Fogoió a mando dos fazendeiros “Bida” e “Taradão”, as lições do episódio foram esquecidas. Outras lideranças morreram e continuam morrendo em disputas fundiárias e por recursos na Amazônia – José Cláudio e Maria, João Chupel Primo, Adelino Ramos, para citar apenas alguns. Entre 2002 e 2013, quase metade de todos os assassinatos de ativistas ambientais do mundo ocorreram no Brasil, conforme afirma a Global Witness. E segundo um relatório da Comissão Pastoral da Terra, pelo mentos 174 pessoas estão hoje ameaçadas de morte na Amazônia Brasileira.

A taxa de desmatamento caiu do patamar de 19 mil quilômetros quadrados para algo em torno de 5 mil quilômetros quadrados por ano na Amazônia. Apesar de lá em Brasília muita gente celebrar estes números como estrondoso sucesso, tais taxas de destruição seriam um escândalo em qualquer lugar do mundo. O Brasil ainda é o país que mais destrói florestas no planeta. Além da Amazônia, pelo menos 7 mil quilômetros quadrados de Cerrado são destruídos a cada ano no Brasil. Cerca de 93% da Mata Atlântica, 20% da Amazônia e 50% do Cerrado já viraram fumaça.

O poder público, sobretudo ao longo dos últimos quatro anos, dá sinais preocupantes de reversão nas políticas que permitiram que a devastação caísse: mudou o Código Florestal, anistiando desmatamentos passados; suspendeu a criação de unidades de conservação; abandonou a política de manejo sustentável de madeira que daria alternativas econômicas às famílias de locais como a Transamazônica e a BR-163; e ressuscitou todo o pacote de obras do Avança Brasil, ora rebatizado como PAC. A usina de Belo Monte, uma das causas originais dos problemas de Anapu, saiu do papel, com mais desmatamento e mais violência em seu rastro. Unidades de conservação criadas no sul do Pará para conter a grilagem foram reduzidas por decreto para acomodar um conjunto de novas usinas hidrelétricas.

O governo federal parece fiar-se em tudo o que “fez” na década passada para seguir empurrando a Amazônia com a barriga – e com os tratores das obras do PAC. Uma política de desenvolvimento regional que leve em conta o potencial e as especificidades da região jamais foi implementada, e parece distante de sê-lo.

Pode ser útil, nesta época em que se planejam os novos compromissos internacionais do Brasil na área de desmatamento e mudanças climáticas, lembrar do que a leniência dos agentes públicos e de toda a sociedade fizeram com Dorothy. E recordar que a devastação só começou a arrefecer na floresta amazônica por causa de um crime bárbaro e uma vergonha global. Nenhum dos dois parece um bom guia para políticas públicas, ainda mais numa região de quase 30 milhões de habitantes e que abarca 60% do território nacional. Do assassinato da educadora Dorothy Stang, lições profundas ainda aguardam para ser aprendidas.



Fonte: Carlos Rittl - Secretário-executivo do Observatório do Clima

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Um Meio Ambiente Sustentável


A Educação Ambiental nos faz refletir sobre a nossa vida presente e futura, porque o que foi feito no passado estamos colhendo neste momento crítico que faz a nossa história. Precisamos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito à natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura de paz. Para chegar a esse propósito é imprescindível que todos nós, declaremos a nossa responsabilidade uns para com os outros e para com todo nosso Meio Ambiente.

A melhoria do Meio Ambiente para ser sustentável só ocorrerá quando o cidadão comum estiver plenamente conscientizado e educado para entender que tudo o que ele faz ou fará gerará impacto no meio que o cerca. Somente através de práticas e ações que visem à sustentabilidade e o respeito à causa, estará garantindo uma vida melhor e mais satisfatória, para ela mesma, e para as gerações futuras.

O conhecimento sobre o meio ambiente será o fator mais importante para que essas mudanças ocorram. As pessoas mesmo tendo se uma divulgação grande sobre esse tema, ainda não têm noção do mal que estão causando ao nosso planeta, pelo desperdício de água, energia, alimentos, queimadas, derrubada de florestas, lixo, e outros. Existem ainda os que só querem garantir seus benefícios através de suas ganâncias e privilégios desregrados, e estes não são poucos, agem como se o hoje apenas fosse importante e não se preocupam com os demais a sua volta.

Precisamos conhecer o meio ambiente para amá-lo e depois preservá-lo

Nunca antes se debateu tanto sobre o meio ambiente e sustentabilidade. As graves alterações climáticas, as crises no fornecimento de água devido à falta de chuva e da destruição dos mananciais e a constatação clara e cristalina de que, se não fizermos nada para mudar, o planeta será alterado de tal forma que a vida como conhecemos deixará de existir.

Cientistas, pesquisadores, amadores e membros de organizações não governamentais se unem, ao redor do planeta, para discutir e levantar sugestões que possam trazer a solução definitiva ou, pelo menos, encontrar um ponto de equilíbrio que desacelere a destruição que experimentamos nos dias atuais. A conclusão, praticamente unânime, é de que políticas que visem à conservação do Meio Ambiente e a sustentabilidade com projetos econômicos de qualquer natureza deve sempre ser a ideia principal e a meta a ser alcançada para qualquer governante, e ter o apoio de todas as pessoas que necessitam do que a natureza nos oferece para dar suporte a nossa vida frágil.

Em paralelo as ações governamentais, todos os cidadãos devem ser constantemente instruídos e chamados à razão para os perigos ocultos nas intervenções mais inocentes que realizam no Meio Ambiente a sua volta; e para a adoção de práticas que garantam a sustentabilidade de todos os seus atos e ações. Destinar corretamente os resíduos domésticos; a proteção dos mananciais que se encontrem em áreas urbanas e a prática de medidas simples que estabeleçam a cultura da sustentabilidade em cada família.

Assim, reduzindo-se os desperdícios, os despejos de esgoto doméstico nos rios e as demais práticas ambientais irresponsáveis; os danos causados ao meio ambiente serão drasticamente minimizados e a sustentabilidade dos assentamentos humanos e atividades econômicas de qualquer natureza, estarão asseguradas.

Estimular o plantio de árvores, a reciclagem de lixo, a coleta seletiva, o aproveitamento de partes normalmente descartadas dos alimentos como cascas, folhas e talos; assim como o desenvolvimento de cursos, palestras e estudos que informem e orientem todos os cidadãos para a importância da participação e do engajamento nesses projetos e nessas soluções simples para fomentar a sustentabilidade e a conservação do Meio Ambiente.

Uma medida bem interessante é ensinar cada família a calcular sua influência negativa sobre o meio ambiente (suas emissões) e orientá-las a proceder de forma a neutralizá-las; garantindo a sustentabilidade da família e contribuindo enormemente para a conservação do Meio Ambiente em que vivem. Mas, como se faz par calcular essas emissões? Na verdade é uma conta bem simples; basta calcular a energia elétrica consumida pela família; o número de carros e outros veículos que ela utilize e a forma como o faz e os resíduos que ela produza. A partir daí; cada família poderá dar a sua contribuição para promover práticas e procedimentos que garantam a devolução à natureza de tudo o que usaram e, com essa ação, gerar novas oportunidades de renda e de bem estar social para sua própria comunidade.

Com toda a certeza se cada um fizer sua parte, individualmente ou coletivamente, estaremos contribuindo para um modo de vida melhor, uma sociedade melhor, um mundo melhor. Não podemos esperar para que nosso próximo, nosso vizinho ou até mesmo filhos ou netos venham a corrigir os erros que passamos a vida toda fazendo sem pensar muitas vezes ou quase nunca nas consequências que hoje estamos colhendo. Há tempo para mudar, mas para isso precisamos nos conscientizar e querer mudar, afinal temos esta obrigação com este planeta que sempre supriu todas nossas necessidades e agora pede um tempo para se recuperar.



Fonte: Luiz Henrique Lopes

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Resíduos - É preciso reduzir a geração


Se observarmos as diversas estatísticas, com relação a disposição dos resíduos sólidos, nos deparamos com uma situação alarmante, visto que 75% das cidades brasileiras dispõem seus resíduos sólidos em lixões. Esta situação trás diversos comprometimentos ao meio ambiente e à saúde da população. Podemos citar problemas como: surgimento de focos de vetores transmissores de doenças, mau cheiro, possíveis contaminação do solo e corpos d'água, além da inevitável destruição da paisagem urbana das cidades, principalmente. Como agravante, deve ser mencionada a presença de catadores nestes locais colocando em risco, não apenas a sua integridade física e de saúde, mas também submetendo-se à uma condição de marginalidade social e econômica, que muitas vezes se confunde com o próprio conceito de lixo, situação esta que deve ser repudiada e melhor administrada pelos governantes.

Diante destes fatos é fundamental que governo e sociedade assumam novas atitudes, visando gerenciar de modo mais adequado a grande quantidade e diversidade de resíduos que são produzidos diariamente nas empresas e residências. Portanto, é preciso inverter a pirâmide, o que significa colocar em prática a desejável política dos “3 Rs” (Reduzir, Reusar e Reciclar) e não continuar produzindo e gerando mais resíduos, deixando que “alguém”assuma a responsabilidade de tratar e dispor adequadamente. Para isso, é preciso modificar atitudes, por exemplo: usar o papel dos dois lados; imprimir somente o que é necessário; otimizar o tamanho do papel ao real espaço da mensagem; usar embalagens recicláveis (papel ou papelão) ; adotar práticas de reciclagem e reuso, como levar sacolas para as compras em vez de sempre usar embalagens novas; separar resíduos “sujos” de resíduos “limpos” que impedem ou dificultam a reciclagem; utilizar frutas e legumes com cascas ou incorporá-las ao solo ; separar resíduos perigosos, como pilhas, lâmpadas, medicamentos, material de limpeza, tinta de cabelo e outros produtos químicos igualmente danosos ao meio ambiente e à saúde humana.

Todas estas práticas não só reduzirão o volume de resíduos gerados diariamente, mas também permitirão o exercício de reuso, culminando num melhor gerenciamento dos resíduos. São atitudes simples e viáveis que poderemos incorporar cada vez mais, a fim de proteger o ar, o solo e a água, trazendo como consequência, melhores condições de saúde humana, qualidade de vida e saúde ambiental.



Fonte: Lauro Charlet Pereira - Doutor e Pesquisador Embrapa Meio Ambiente

terça-feira, 31 de março de 2015

Ecossistemas marinhos podem levar milênios para se recuperar do aquecimento global


Em todo o planeta, são diversos os locais cuja biodiversidade encontra-se ameaçada. O clima e a mudança de clima podem afetar os ecossistemas e a biodiversidade de várias maneiras. Os oceanos do mundo estão diante de uma ameaça maior do que se supunha anteriormente, proveniente de um "trio mortal" composto por aquecimento global, nível de oxigênio em declínio e acidificação.

"A escala e a velocidade da perturbação de carbono atual, e a resultante acidificação do oceano, são inéditas na história conhecida da Terra", segundo o relatório feito com a União Internacional para a Conservação da Natureza.

Os oceanos estão se aquecendo por causa do calor resultante do acúmulo de gases do efeito-estufa na atmosfera. Fertilizantes e esgoto que vão parar nos mares podem provocar a proliferação de algas, reduzindo os níveis de oxigênio nas águas.

E o dióxido de carbono no ar pode formar um ácido fraco quando reage com a água do mar. "O ‘trio mortal' de acidificação, aquecimento e desoxigenação está afetando gravemente a produtividade e a eficiência do oceano", diz o estudo.

Os ecossistemas oceânicos alterados pelas rápidas mudanças climáticas podem exigir milhares de anos para se recuperar, de acordo com um estudo realizado por cientistas norte-americanos em conchas fossilizadas no fundo do mar divulgado nesta segunda-feira (30 março 2015).

Os trabalhos, liderados pela ecologista marinha Sarah Moffitt, da Universidade da Califórnia, mostram que o aquecimento global e a desoxigenação das águas do oceano provocada pela elevação das temperaturas podem modificar muito rapidamente a ecologia do meio.

A recuperação pode levar milhares de anos e não séculos como se pensava anteriormente, concluíram os pesquisadores, cujo estudo foi publicado nos anais da Academia Americana de Ciências (PNAS).
Os cientistas analisaram mais de 5.400 fósseis de invertebrados, de ouriços a moluscos, em uma amostra de sedimentos marinhos ao longo de Santa Barbara, Califórnia (oeste).

Os sedimentos extraídos a dez metros de profundidade do fundo do mar remontam a 3.400 e 16.100 anos atrás, e permitem começar a entender o que aconteceu com estes ecossistemas durante e após o último grande período de glaciação, há 110.000 e 10.000 anos atrás.

Os cientistas estimam que os níveis de oxigênio nos oceanos diminuíram em proporções limitadas — de 0,5 a 1,5 mililitro por litro de água em menos de um século. Isso mostra que mesmo pequenas mudanças podem ter efeitos drásticos sobre os ecossistemas do fundo do mar.

Os resultados sugerem que a mudança climática global pode causar efeitos semelhantes sobre os ecossistemas, que precisariam de milhares de anos para se recuperar.

“Este fenômeno observado no passado nos mostra o quão sensíveis são os ecossistemas às mudanças climáticas na Terra, com consequências que duram milênios”, avaliou Moffitt.



Fonte: www.noticias.terra.com.br

segunda-feira, 30 de março de 2015

Transgênicos trouxeram aumento do uso de agrotóxicos


Quando iniciou o debate sobre a utilização de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) na agricultura, uma das principais promessas feitas por seus defensores era que o cultivo de transgênicos, entre outros benefícios, traria uma diminuição do uso de agrotóxicos, em função do desenvolvimento de plantas resistentes a pragas. Passadas cerca de duas décadas, o que se viu no Brasil foi exatamente o contrário. A crescente liberação do plantio de variedades transgênicas de soja, milho e outros cultivos trouxe não uma diminuição, mas um aumento da utilização de agrotóxicos. Mais grave ainda: vem provocando o surgimento de novas pragas mais resistentes aos venenos, que demandam o desenvolvimento de novos venenos, numa espiral que parece não ter fim e que vem sendo construída sem os estudos de impacto ambiental necessários.

Esse foi um dos alertas feitos no painel “10 anos da Lei de Biossegurança e os Transgênicos no Brasil”, realizado terça-feira (24 março 2015) à noite, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Promovido pela Agapan, InGá Estudos Ambientais, Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (MoGDeMA) e GVC – Projeto de Extensão da Biologia da UFRGS, o encontro, além de atualizar a situação da Lei de Biossegurança e da transgenia no Brasil, prestou uma homenagem à pesquisadora Magda Zanoni, recentemente falecida, que foi uma das principais pesquisadoras no campo da reforma agrária e da agricultura familiar no país, e uma crítica do uso de organismos transgênicos na agricultura como uma solução para os problemas da alimentação no mundo.

Situação da Biossegurança no país piorou, diz pesquisadora

O painel reuniu a doutora em Ciências Sociais, Marijane Lisboa, professora da PUC-SP, e o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Agapan. Marijane Lisboa fez um balanço dos dez anos da Lei de Biossegurança, lembrando que essa é, na verdade, a segunda legislação sobre esse tema no Brasil. A primeira lei, de 1995, assinalou, era melhor que a atual pois tinha uma regra que submetia as decisões da Coordenação-Geral da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) ao parecer de órgãos ambientais e da área da saúde. “Essa cláusula permitiu, por exemplo, ingressarmos na justiça contra a liberação da primeira variedade de soja transgênica no Brasil. Isso, ao menos, atrasou a liberação dos transgênicos no país”, assinalou a pesquisadora. Mas essa lei tinha uma desvantagem em relação à atual: durante a sua vigência, as reuniões da CTNBio eram fechadas para a sociedade.

O atraso na liberação das primeiras variedades transgênicas não impediu, porém que elas começassem a ser plantadas de forma ilegal no país. O Rio Grande do Sul foi um Estado pioneiro nessa ilegalidade, com o plantio da chamada soja Maradona, contrabandeada da Argentina. Marijane Lisboa trabalhou no Ministério do Meio Ambiente, quando Marina Silva, era ministra, e vivenciou diretamente todo o lobby da indústria dos transgênicos e de seus braços parlamentares para a liberação do plantio. “A pressão política foi muito forte e a soja transgênica acabou sendo liberada, no governo Lula, por Medida Provisória. Quando o governo enviou a MP para o Congresso, a bancada ruralista anunciou que pretendia fazer uma emenda para ampliar a liberação e torná-la permanente. Seguiu-se uma negociação que acabou dando origem à nova Lei de Biossegurança”, relatou.

Para construir uma ponte, precisa estudo de impacto ambiental. Para liberar transgênico, não

Uma das principais disputas travadas na época se deu em torno da vinculação ou não dos pareceres da CTNBio à avaliação dos órgãos ambientais. “Nós defendíamos essa vinculação, mas, infelizmente, o então ministro Aldo Rebelo decidiu pela posição contrária. O que os cientistas decidissem na CTNBio seria a palavra final, o que deu origem à uma lei muito pior que a anterior. “Não é possível que, para construir uma ponte, seja preciso ter um estudo de impacto ambiental, e para liberar um produto transgênico para o consumo humano não exista a mesma exigência”, criticou a professora da PUC-SP. “Hoje”, acrescentou, “os integrantes da CTNBio são escolhidos diretamente pelo ministro da Ciência e Tecnologia. Nós temos cinco representantes da sociedade civil, mas eles devem ser doutores e representam uma posição minoritária. Os lobistas da indústria dos transgênicos assistem às reuniões para ver como os cientistas estão se comportando. Essa é a CTNBio hoje. Ela foi sendo adaptada para liberar tudo”.

Na mesma direção, Leonardo Melgarejo criticou o atual modo de funcionamento da CTNBio, observando que os integrantes da comissão aprovam a liberação de transgênicos com base em uma bibliografia totalmente favorável a essa posição, composta em sua maioria por artigos não publicados em revistas indexadas. Para enfrentar essa situação, um grupo de pesquisadores está preparando um livro com 700 artigos de cientistas que fazem um contraponto a esse suposto consenso favorável à liberação do plantio e consumo dos transgênicos. Esse livro incluirá artigos publicados já nos primeiros meses de 2015 que contestam esse suposto consenso. Um deles, “No scientific consensus on GMO safety”, de autoria de um grupo de cientistas da European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility, denuncia a fragilidade de evidências científicas para sustentar tal consenso.

Hoje, não dá para dissociar agrotóxicos de transgênicos

Melgarejo chamou a atenção para o fato de que não é possível, hoje, dissociar agrotóxicos de transgênicos. “Quando alguém sente cheiro de veneno já está sendo envenenado”, resumiu. Além dos problemas de contaminação, advertiu, há vários outros que não são do conhecimento da sociedade. Entre eles, está o fenômeno do aumento da resistência de certas bactérias a antibióticos e o surgimento de novas pragas, o que leva ao desenvolvimento de novos tipo de transgênicos. A França, relatou ainda o engenheiro agrônomo, proibiu ontem (23 março 2015) o cultivo do milho geneticamente modificado MON 810. Melgarejo advertiu também para os riscos da aprovação no Brasil do agrotóxico 2,4 D, muito mais tóxico que o glifosato, e do projeto de lei do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS), propondo o fim da rotulagem dos transgênicos.

O biólogo Paulo Brack, do InGá Estudos Ambientais, também criticou o modo de funcionamento atual da Comissão Nacional de Biossegurança. “A situação da CTNBio passou dos limites. Não há espaço para debate científico nas reuniões, as cartas já estão marcadas. A maioria dos integrantes da CTNBio tem vínculos com empresas”. Para Brack, a agricultura convencional hoje se tornou disfuncional pois não respeita princípios ecológicos básicos. “A lógica é aumentar o consumo dos agrotóxicos”, assinalou o biólogo, que apresentou um gráfico que atesta esse crescimento.

Em 2005, quando foi a aprovada a Lei de Biossegurança 11.105, que impulsionou a liberação de transgênicos no país, o consumo de agrotóxicos no Brasil estava na casa dos 700 milhões de litros/ano. Em 2011, seis anos apenas depois, já estava na casa dos 853 milhões de litros/ano. Em 2013, as estimativas apontam para um consumo superior a um bilhão de litros/ano, uma cota per capita de aproximadamente 5 litros por habitante. O Brasil consome hoje pelo menos 14 agrotóxicos que são proibidos em outros países do mundo.



Fonte: www.sul21.com.br